Alcaçuz (Glycyrrhiza glabra): Tosse, Garganta e o Risco para a Pressão Alta | Guia Plantas Medicinais

O alcaçuz (Glycyrrhiza glabra L., família Fabaceae) é uma das raízes medicinais mais antigas e mais queridas do mundo. No Brasil, ele vive no balcão da farmácia e da loja de produtos naturais em forma de xarope, pastilha, “raiz para chá” e até de doce. A fama é justa em uma coisa: o alcaçuz tem longo histórico de uso tradicional para acalmar a tosse, a dor de garganta e a irritação da boca e da garganta, e integra a composição de muitos fitoterápicos e xaropes registrados. O problema está no uso prolongado e nas doses altas — e é disso que este guia trata.

A regra de segurança mais importante é direta e muitas vezes ignorada: a raiz “natural” do alcaçuz, em uso contínuo ou em quantidade grande, pode elevar a pressão arterial, reter líquido e derrubar o potássio — um efeito conhecido por pseudohiperaldosteronismo. Para quem já tem pressão alta, doença do coração, problema nos rins, ou para quem usa diuréticos, remédios para o coração, anticoncepcionais ou corticoides, o alcaçuz deixa de ser inofensivo e passa a ser risco real. Ele não substitui tratamento médico para tosse crônica, asma, úlcera, refluxo ou qualquer doença, e não é “remédio caseiro seguro para usar todo dia”.

Antes de detalhar, vale situar o alcaçuz entre as plantas respiratórias já abordadas aqui: leia os guias sobre tosse e bronquite com assa-peixe, garganta e pele com tanchagem, guaco para tosse e gripe e eucalipto para nariz entupido e tosse. Mais adiante há um quadro comparando as formas de alcaçuz e o que muda no risco.

Que planta é essa? Origem, raiz e uso tradicional

O alcaçuzeiro é uma planta perene da família das leguminosas (Fabaceae), nativa de regiões da Europa mediterrânea e da Ásia, cultivada há milênios. O nome Glycyrrhiza vem do grego e significa “raiz doce” — e é a raiz (e o rizoma) que se usa, seca e preparada em chá, decocção, xarope ou extrato. O sabor adocicado é marcante: a raiz é dezenas de vezes mais doce que o açúcar, graças ao seu componente principal, a glicirrizina (também chamada de ácido glicirrizínico).

No Brasil, o alcaçuz chegou pela tradição europeia e se misturou ao uso popular para tosse, rouquidão, dor de garganta, “limpar o pulmão” e, às vezes, para “desinflamar o estômago”. Esse histórico justifica o interesse de pesquisa e a presença da planta em xaropes e pastilhas. O detalhe central para a segurança é que a glicirrizina é justamente o componente que faz mal em excesso, porque ela mexe no equilíbrio de sódio e potássio do organismo. Existe uma versão “sem glicirrizina” (o chamado alcaçuz deglicirrizinado, ou DGL), usada para evitar o efeito na pressão — mas no Brasil muitos produtos a granel e “raiz de alcaçuz” vendidos soltos não informam a dose de glicirrizina nem se passaram por esse processo.

O que a ciência de fato diz

Há evidência razoável — não absoluta, mas consistente — para alguns usos tradicionais do alcaçuz:

  • Irritação de garganta e tosse: a raiz tem ação emoliente e expectorante reconhecida em monografias oficiais, que justificam seu uso tradicional de curto prazo para aliviar a garganta irritada e a tosse. Por isso ela aparece em xaropes e pastilhas.
  • Uso tópico na boca e na pele: preparados de alcaçuz têm sido estudados para aftas, mucosite (em pacientes em tratamento oncológico) e algumas condições de pele, sempre com orientação profissional.
  • Possível ação anti-inflamatória e antiviral: a glicirrizina tem atividade investigada em laboratório, o que sustenta pesquisa — mas não autoriza promessas de cura nem uso por conta própria em doenças graves.

É essencial ler essas conclusões sem exagero. Uso tradicional e atividade em laboratório não são prova de que o chá ou a cápsula curem doença alguma, e muito menos de que sejam seguros por tempo indeterminado. Para temas vizinhos, vale conferir plantas para rinite alérgica e o guia sobre gripe, resfriado e plantas.

O perigo escondido: alcaçuz, pressão alta e perda de potássio

Este é o ponto central de segurança, e é o motivo pelo qual o alcaçuz não deve ser tratado como um chá inofensivo para usar todo dia. A glicirrizina é transformada no organismo em ácido glicirretínico, que bloqueia uma enzima (a 11β-HSD2) responsável por “desligar” o cortisol no rim. Quando essa enzima não funciona direito, o cortisol passa a agir como um excesso de aldosterona — o hormônio que retém sódio e elimina potássio. O resultado é o chamado pseudohiperaldosteronismo:

  • Elevação da pressão arterial, às vezes importante;
  • Retenção de líquido e inchaço (edema), sobretudo nas pernas e no rosto;
  • Queda do potássio (hipocaliemia), que pode provocar câimbras, fraqueza muscular, fadiga e, em casos graves, arritmias cardíacas;
  • Desequilíbrio do sódio, que afeta idosos e pessoas com problemas cardíacos e renais.

Esse efeito é dose-dependente e acumulativo: uma pastilha pontual para a garganta raramente é problema; semanas de chá forte, de extrato ou de cápsulas podem ser. A Autoridade Europeia de Medicamentos (EMA), em sua monografia sobre a raiz de alcaçuz, estabelece que o uso sem supervisão médica deve ser de curta duração, com limite diário de glicirrizina (em geral cerca de 100 mg/dia) e contraindicação para quem tem pressão alta, doença renal, doença hepática ou usa diuréticos. Em outras palavras, o “remédio natural para a tosse” pode, com o tempo, piorar justamente a pressão que tantos brasileiros tentam controlar — o oposto do que se espera de uma planta “que faz bem”. Para o contexto cardiovascular, leia plantas, coração e pressão e hibisco e pressão arterial.

Interações medicamentosas

Quem usa medicamentos contínuos precisa de atenção redobrada com o alcaçuz:

  • Diuréticos (tiazídicos, furosemida): o alcaçuz já favorece a perda de potássio; a associação leva a hipocaliemia grave, com risco de arritmia.
  • Digoxina (remédio para o coração): a queda de potássio causada pelo alcaçuz aumenta o risco de toxicidade e arritmia da digoxina.
  • Anti-hipertensivos: o alcaçuz eleva a pressão e pode anular o efeito de remédios para hipertensão.
  • Anticoagulantes (varfarina): o alcaçuz pode interferir na coagulação e alterar o controle do tratamento.
  • Anticoncepcionais e terapia hormonal: potenciam retenção de líquido, pressão alta e queda de potássio.
  • Corticoides: o alcaçuz prolonga a ação dos corticoides no organismo, ampliando efeitos e riscos.
  • Laxantes estimulantes: somam perda de potássio (veja sene, laxante natural).

A regra prática é simples: leve a lista completa do que você toma — chás, xaropes, pastilhas, cápsulas e remédios — para a consulta. O guia sobre interações medicamentosas com plantas e a FAQ sobre plantas e remédios aprofundam o tema, e o texto sobre plantas medicinais, cirurgia e anestesia explica por que suspender essas substâncias antes de procedimentos é rotina.

Quem deve evitar o alcaçuz

Por prudência, devem evitar ou só usar com orientação profissional:

  • Quem tem hipertensão, doença cardíaca, insuficiência cardíaca, arritmias ou histórico de infarto: o risco de elevar a pressão, reter líquido e provocar arritmia é real e bem documentado.
  • Quem tem doença renal, cirrose ou doença hepática: o equilíbrio de sódio e potássio já é frágil nesses quadros.
  • Quem tem hipocaliemia (potássio baixo) ou osteoporose: o alcaçuz piora ambos.
  • Gestantes e lactantes: o consumo alto de glicirrizina na gravidez associa-se a risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer e, em alguns estudos, a efeitos sobre o desenvolvimento da criança — evite extratos e chás concentrados (veja plantas na gravidez).
  • Homens com sensibilidade hormonal: o alcaçuz, em altas doses, pode reduzir a testosterona; quadros de próstata e de libido merecem avaliação (veja urtiga e próstata).
  • Crianças e idosos: mais sensíveis às mudanças de pressão e potássio; o uso de xaropes e pastilhas deve seguir orientação e bula (veja crianças e plantas).
  • Quem usa medicamentos contínuos (ver seção anterior).

Alcaçuz na gravidez: atenção especial

A gravidez merece parágrafo à parte porque o alcaçuz é frequente em chás e xaropes “para tosse” de uso caseiro. Estudos de coorte indicam que o consumo elevado de glicirrizina durante a gestação se associa a menor tempo de gestação, menor peso ao nascer e, em algumas avaliações de longo prazo, a resultados de desenvolvimento cognitivo e comportamento piores na infância. O conselho prudente é evitar extratos, cápsulas e chás fortes e prolongados de alcaçuz na gravidez e preferir, para tosse e garganta, medidas simples (hidratação, mel para maiores de 1 ano, repouso) ou produtos registrados com orientação médica e farmacêutica. Em qualquer caso, comunique o pré-natal.

Alcaçuz em xarope, pastilha e raiz: um quadro rápido

Para não confundir risco e uso, vale comparar as formas mais comuns no Brasil. Nenhuma substitui tratamento médico, e o risco cresce com a dose e o tempo:

  • Pastilha / bala de alcaçuz — dose pequena e pontual; baixo risco para a maioria dos adultos, mas atenção ao uso frequente e em quem tem pressão alta.
  • Xarope registrado (fitoterápico) — segue padrões da ANVISA e traz dose e advertências na bula; use conforme orientação e respeite o tempo de tratamento.
  • Raiz seca para chá / decocção — uso tradicional para garganta e tosse; evite o uso diário e prolongado pelo teor de glicirrizina.
  • Extrato, cápsula e pó a granel — maior concentração e maior risco; muitos não têm registro, dose ou pureza garantidos.
  • Alcaçuz deglicirrizinado (DGL) — formulado para reduzir a glicirrizina e o efeito na pressão; não assume que todo produto a granel seja DGL — confirme no rótulo.

Sobre o preparo, o guia como fazer chá medicinal corretamente traz boas práticas gerais — lembrando que chá, extrato, tintura e fitoterápico têm controles e riscos muito diferentes. Para a tosse infantil, prefira as orientações do texto sobre xarope caseiro para tosse em crianças, nunca o alcaçuz concentrado por conta própria.

A ANVISA e o alcaçuz que você compra

O alcaçuz chega ao consumidor de formas com regulamentação muito diferente:

  • Xaropes e pastilhas como fitoterápico: produtos registrados na ANVISA precisam atender a padrões de qualidade, dose e advertências obrigatórias — leia a bula. Aprenda a verificar no guia como ler o rótulo de fitoterápico e como consultar fitoterápico na ANVISA.
  • Raiz, pó e “extrato” a granel: costumam ser vendidos como alimento ou produto natural, sem registro como medicamento. Sem registro, não há garantia de dose, pureza, identidade botânica ou ausência de adulteração — e o teor de glicirrizina quase nunca aparece. Conheça os riscos do produto natural sem registro e saiba como denunciar produto irregular.
  • Regulação em conjunto: a raiz de alcaçuz integra a Farmacopeia Brasileira e a Memento Fitoterápico, e tem monografia tradicional da EMA/HMPC, que limita o uso sem supervisão a poucas semanas. Para o marco regulatório mais amplo, leia sobre o novo marco de fitoterápicos da ANVISA. Estar em monografias oficiais não significa que a raiz de balcão seja segura em qualquer dose.

Como conversar com o profissional de saúde

Fitoterapia consciente não é rejeitar tudo nem aceitar qualquer promessa: é combinar tradição, identidade botânica, qualidade, evidência e prudência clínica. Se você quer usar alcaçuz, pergunte ao médico, ao farmacêutico ou à equipe da Unidade Básica de Saúde: “Esta planta faz sentido no meu caso? Tenho pressão alta ou uso diurético/coração — corro risco? Quanto tempo posso usar? Que sinais devo vigiar?” Leve a lista de medicamentos e meça a pressão e o potássio se o uso for mais do que pontual.

E lembre-se: tosse que não passa, dor de garganta recorrente, falta de ar, voz rouca por semanas ou pressão alta mal controlada não se resolvem com ‘um chá de alcaçuz todo dia’. Procure avaliação — nunca uma raiz ou cápsula de alcaçuz por conta própria como solução.

Perguntas frequentes

Alcaçuz faz mal para quem tem pressão alta?

Sim, pode fazer. Em uso prolongado ou em doses altas, a glicirrizina do alcaçuz eleva a pressão arterial, retém líquido e reduz o potássio (pseudohiperaldosteronismo). Quem tem hipertensão, doença cardíaca ou renal deve evitar chás, extratos e cápsulas de alcaçuz e só usar pastilhas ou xaropes registrados com orientação. Veja plantas, coração e pressão.

Posso tomar chá de alcaçuz para tosse todo dia?

Não é recomendável por conta própria. O uso tradicional para garganta e tosse é de curta duração (alguns dias). O uso diário e prolongado aumenta o risco de pressão alta, inchaço e queda de potássio. Para a tosse, prefira hidratação, repouso e, se necessário, xaropes com orientação — leia assa-peixe para tosse e xarope caseiro para crianças.

Alcaçuz deglicirrizinado (DGL) é mais seguro?

O alcaçuz deglicirrizinado é formulado para remover a maior parte da glicirrizina e, com isso, reduzir o efeito na pressão. Ele é usado, sob orientação, para questões gástricas. Mas nem todo produto a granel é DGL — confirme no rótulo e não assuma segurança sem isso. Para o estômago, leia também espinheira-santa e gastrite e úlcera.

Gestantes podem usar alcaçuz?

O consumo elevado de glicirrizina na gravidez associa-se a parto prematuro, baixo peso ao nascer e, em alguns estudos, a efeitos sobre o desenvolvimento da criança. Evite extratos, cápsulas e chás fortes e prolongados de alcaçuz na gestação; prefira medidas simples e comunique o pré-natal. Veja plantas na gravidez.

Alcaçuz atrapalha remédios?

Pode. Ele interage com diuréticos (queda grave de potássio), digoxina (risco de toxicidade), anti-hipertensivos (anula o efeito), anticoagulantes, anticoncepcionais, corticoides e laxantes. Leve a lista completa de tudo o que você toma para a consulta. Veja interações medicamentosas com plantas.

Referências

  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Materiais sobre regulamentação de medicamentos fitoterápicos, alimentos e produtos sem registro; Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira e Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, que contemplam Glycyrrhiza spp.
  • European Medicines Agency (EMA) / Committee on Herbal Medicinal Products (HMPC). Assessment report and community herbal monograph on Glycyrrhiza glabra L. and/or Glycyrrhiza inflata Bat. and/or Glycyrrhiza uralensis Fisch., radix: uso tradicional, limites de glicirrizina, duração e contraindicações (hipertensão, doença renal, hepática e uso de diuréticos).
  • Brasil. Ministério da Saúde. Materiais sobre a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), SUS e educação em saúde sobre hipertensão, potássio e saúde cardiovascular.
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). Diretrizes e notas técnicas sobre hipertensão arterial, hipocaliemia, arritmias e pseudohiperaldosteronismo.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Materiais sobre tosse na infância e segurança de fitoterápicos na gestação.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO). Materiais sobre o consumo de glicirrizina na gravidez, hipertensão e hábitos saudáveis.
  • Literatura de farmacologia e estudos de coorte indexados em PubMed, BVS e SciELO sobre Glycyrrhiza glabra, glicirrizina, inibição da 11β-HSD2, pseudohiperaldosteronismo, interações medicamentosas (digoxina, diuréticos, anticoagulantes, corticoides) e segurança na gestação.

⚕️ Aviso importante: Este conteúdo é informativo e educacional. Ele não substitui consulta médica, farmacêutica, nutricional, diagnóstico ou tratamento. O alcaçuz não substitui tratamento médico para tosse crônica, asma, dor de garganta persistente, úlcera, refluxo, hipertensão ou qualquer doença. Em uso prolongado ou em doses altas, a glicirrizina da raiz pode elevar a pressão arterial, reter líquido e reduzir o potássio (pseudohiperaldosteronismo), com risco de arritmia. Não use raiz, pó, extrato, tintura, cápsulas ou chás concentrados de alcaçuz sem orientação profissional — especialmente se você está grávida ou amamentando, cuida de criança ou idoso, ou tem hipertensão, doença do coração, arritmia, doença renal, doença hepática, hipocaliemia ou osteoporose, ou se usa diuréticos, digoxina, anti-hipertensivos, anticoagulantes, anticoncepcionais, corticoides ou laxantes. Em sinais como dor no peito, palpitações, falta de ar, inchaço importante, pressão muito alta, fraqueza muscular intensa ou alteração do estado de consciência, procure socorro imediato.

⚠️ Aviso Importante Este conteúdo é apenas informativo e educacional, não constituindo aconselhamento médico ou farmacêutico. Não substitui a orientação de um profissional de saúde qualificado. Consulte um médico ou farmacêutico antes de usar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando, tomando medicamentos ou possuir condições de saúde pré-existentes.
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