Erva-Cidreira ou Melissa? Entendendo a Diferença
No Brasil, um dos maiores pontos de confusão quando se fala em plantas medicinais envolve os nomes erva-cidreira e melissa. Dependendo da região do país, esses nomes podem se referir a plantas completamente diferentes, o que gera dúvidas não apenas entre leigos, mas também entre profissionais de saúde.
A melissa (Melissa officinalis L.) é uma planta herbácea da família Lamiaceae, originária da região do Mediterrâneo e da Ásia Ocidental. Possui folhas ovaladas com bordas serrilhadas, aroma cítrico intenso que lembra limão e flores pequenas de coloração branca ou levemente rosada.
Já a erva-cidreira brasileira (Lippia alba (Mill.) N.E.Br.) pertence à família Verbenaceae e é nativa da América do Sul. Trata-se de um arbusto com folhas aromáticas, flores pequenas lilases ou brancas e aroma que também remete a limão, o que explica a confusão de nomes.
Apesar do aroma semelhante e de compartilharem algumas propriedades (ambas são calmantes e digestivas), essas são espécies botanicamente distintas, com composição química diferente e particularidades terapêuticas próprias. É fundamental saber qual das duas você está utilizando para garantir o uso seguro e eficaz.
Composição Química
Melissa officinalis
A melissa europeia possui um óleo essencial rico em citral (composto por neral e geranial), citronelal e geraniol, que são os responsáveis pelo aroma cítrico característico. Além do óleo essencial, a planta contém ácidos fenólicos importantes, destacando-se o ácido rosmarínico, com potente ação antioxidante e anti-inflamatória.
Os flavonoides presentes incluem a luteolina e a apigenina, que contribuem para o efeito calmante. Triterpenos, como os ácidos ursólico e oleanólico, complementam o perfil fitoquímico com propriedades anti-inflamatórias e hepatoprotetoras.
Lippia alba
A erva-cidreira brasileira apresenta grande variabilidade química conforme a região de cultivo, o que levou à classificação de diferentes quimiotipos. Os principais quimiotipos descritos são o quimiotipo citral (rico em neral e geranial), o quimiotipo linalol (com predominância de linalol) e o quimiotipo carvona (rico em carvona e limoneno).
Independentemente do quimiotipo, a Lippia alba contém flavonoides, taninos, iridoides e saponinas que contribuem para suas atividades biológicas. A variabilidade química é um fator importante a considerar, pois influencia diretamente nas propriedades terapêuticas da planta.
Benefícios da Melissa (Melissa officinalis)
Efeito Calmante e Ansiolítico
A melissa é uma das plantas medicinais com mais estudos clínicos comprovando sua ação sobre o sistema nervoso. Um estudo publicado na revista Nutrients demonstrou que o extrato de melissa reduziu significativamente os níveis de ansiedade e melhorou o humor e a cognição em voluntários saudáveis submetidos a estresse laboratorial.
O mecanismo de ação envolve a inibição da enzima GABA-transaminase, o que aumenta a disponibilidade do neurotransmissor GABA (ácido gama-aminobutírico) no sistema nervoso central. O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro, e seu aumento está associado a efeitos relaxantes e ansiolíticos.
Ação Antiviral
Uma das propriedades mais interessantes e específicas da melissa é sua atividade antiviral, particularmente contra o vírus herpes simples (HSV-1 e HSV-2). Estudos in vitro e clínicos demonstraram que extratos de melissa inibem a replicação do vírus herpes. Um ensaio clínico publicado no Phytomedicine mostrou que a aplicação tópica de creme contendo extrato de melissa reduziu o tempo de cicatrização e a intensidade dos sintomas do herpes labial de forma significativa.
O ácido rosmarínico e outros compostos polifenólicos são os principais responsáveis por essa ação antiviral, interferindo na ligação do vírus às células hospedeiras e na sua replicação intracelular.
Melhora da Função Cognitiva
Pesquisas conduzidas na Universidade de Northumbria, no Reino Unido, revelaram que a melissa pode melhorar a memória e a atenção. Os participantes que receberam extrato de melissa apresentaram melhor desempenho em testes de memória e maior sensação de calma, sem o efeito de sonolência. Esse achado é particularmente relevante para idosos, onde a melissa poderia auxiliar na manutenção da função cognitiva.
Propriedades Digestivas
A melissa é indicada para distúrbios digestivos funcionais, como dispepsia, flatulência e cólicas intestinais. Seus compostos antiespasmódicos relaxam a musculatura lisa do trato gastrointestinal, aliviando desconfortos. Um estudo multicêntrico avaliou a combinação de melissa com outras plantas para o tratamento da dispepsia funcional, com resultados positivos e significativos na redução dos sintomas.
Benefícios da Erva-Cidreira Brasileira (Lippia alba)
Ação Sedativa e Calmante
Estudos farmacológicos realizados por pesquisadores brasileiros demonstraram que extratos de Lippia alba possuem ação sedativa dose-dependente em modelos experimentais. A planta reduz a atividade locomotora e prolonga o tempo de sono induzido por barbitúricos, confirmando o uso popular como calmante e auxiliar do sono.
A Lippia alba está incluída na RENISUS e é amplamente utilizada em programas de fitoterapia de diversos municípios brasileiros, atendidos pelo SUS.
Efeito Analgésico e Anti-inflamatório
Pesquisas publicadas no Journal of Ethnopharmacology demonstraram que extratos de Lippia alba possuem atividade analgésica significativa, comparável em alguns modelos a analgésicos convencionais. A ação anti-inflamatória também foi comprovada, com redução do edema e da migração de células inflamatórias em modelos experimentais.
Atividade Antimicrobiana
O óleo essencial de Lippia alba demonstrou atividade antimicrobiana contra diversas espécies de bactérias e fungos patogênicos, incluindo Staphylococcus aureus, Escherichia coli e Candida albicans. Essa propriedade justifica o uso tradicional da planta em gargarejos para dor de garganta e em lavagens para ferimentos superficiais.
Como Preparar e Utilizar
Infusão de Melissa (Melissa officinalis)
Utilize 2 a 4 gramas de folhas secas (ou 4 a 8 folhas frescas) para cada 150 ml de água quente. Despeje a água recém-fervida sobre as folhas, tampe e deixe em infusão por 5 a 10 minutos. Coe e consuma. A recomendação é de duas a três xícaras ao dia. Para auxiliar o sono, tome uma xícara 30 minutos antes de deitar.
Infusão de Erva-Cidreira Brasileira (Lippia alba)
Utilize 2 a 3 gramas de folhas secas (ou um punhado de folhas frescas) para cada xícara de água. O preparo segue o mesmo método da melissa. O sabor é suave e agradável, com notas cítricas pronunciadas.
Tintura de Melissa
A tintura (extrato hidroalcoólico) de melissa pode ser encontrada em farmácias de manipulação. A dose usual é de 2 a 6 ml por dia, diluída em água, dividida em duas a três tomadas. A tintura é uma forma mais concentrada e pode ser útil quando o chá não é prático.
Uso Tópico da Melissa
Para herpes labial, cremes ou pomadas contendo extrato de melissa padronizado a 1% devem ser aplicados sobre a lesão de três a quatro vezes ao dia, iniciando aos primeiros sinais de formigamento, antes do aparecimento das vesículas. Esse uso tópico é respaldado por estudos clínicos e é uma alternativa complementar ao tratamento convencional.
Contraindicações
A melissa e a erva-cidreira brasileira são consideradas plantas de boa segurança quando utilizadas nas doses recomendadas. No entanto, algumas precauções são necessárias.
Pessoas com hipotireoidismo devem evitar o uso frequente de melissa, pois estudos indicam que a planta pode interferir na função da tireoide, inibindo a ligação do TSH (hormônio estimulante da tireoide) aos receptores tireoidianos. Pacientes em uso de medicamentos para tireoide (como levotiroxina) devem consultar o médico antes de usar melissa regularmente.
O uso concomitante com sedativos, ansiolíticos e barbitúricos requer cautela devido ao potencial de potencialização do efeito sedativo. Da mesma forma, a associação com medicamentos para glaucoma pode requerer ajustes, uma vez que a melissa pode influenciar a pressão intraocular.
Gestantes e lactantes devem utilizar com moderação e preferencialmente sob orientação de um profissional de saúde. Embora não haja relatos de efeitos adversos graves, os estudos de segurança em gestantes são limitados.
Pessoas com dermatite de contato prévia a plantas da família Lamiaceae devem realizar teste de sensibilidade antes do uso tópico de melissa.
Referências
- ANVISA. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição. Brasília, 2021.
- BRASIL. Ministério da Saúde. RENISUS - Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. Brasília, 2009.
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