Espinheira-Santa: Benefícios para o Estômago | Guia Plantas Medicinais

O Que é a Espinheira-Santa?

A espinheira-santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek) é uma árvore de pequeno porte nativa do sul e sudeste do Brasil, pertencente à família Celastraceae. Seu nome popular faz referência às folhas com bordas espinhosas, semelhantes às do azevinho europeu, e à reputação “santa” que adquiriu ao longo dos séculos por suas notáveis propriedades terapêuticas para problemas gástricos.

Essa espécie ocorre naturalmente nos biomas Mata Atlântica e Cerrado, sendo encontrada nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Conhecida regionalmente também como cancerosa, cancorosa, cangorça, espinho-de-deus e maiteno, a espinheira-santa é utilizada há séculos por populações indígenas e tradicionais para o tratamento de úlceras, gastrite e outros problemas digestivos.

A espinheira-santa ocupa uma posição de destaque na fitoterapia brasileira. É uma das plantas medicinais nativas mais estudadas cientificamente no país, com pesquisas que remontam às décadas de 1980 e 1990, conduzidas principalmente pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pelo Central de Medicamentos (CEME) do Ministério da Saúde. Esses estudos resultaram na validação científica do uso tradicional e na aprovação de fitoterápicos pela ANVISA.

Composição Química

Triterpenos e Friedelanos

Os triterpenos pentacíclicos do tipo friedelano são os compostos mais importantes da espinheira-santa do ponto de vista farmacológico. Os principais representantes são a friedelina e o friedelanol (epifriedelanol), presentes nas folhas em concentrações relevantes. Esses compostos são os principais responsáveis pela ação antiulcerogênica e gastroprotetora da planta.

Estudos farmacológicos demonstraram que a friedelina e o friedelanol reduzem a secreção de ácido clorídrico no estômago e aumentam a produção de muco protetor da mucosa gástrica, criando uma barreira contra os fatores agressores.

Taninos Condensados

Os taninos presentes na espinheira-santa possuem propriedades adstringentes e cicatrizantes. Eles formam uma camada protetora sobre a mucosa gástrica danificada, auxiliando no processo de cicatrização de úlceras e erosões. A ação adstringente dos taninos também contribui para a redução do sangramento em lesões gástricas.

Flavonoides

Os flavonoides da espinheira-santa, como a quercetina, o kaempferol e a epicatequina, contribuem com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Esses compostos protegem as células da mucosa gástrica contra o estresse oxidativo, um dos mecanismos envolvidos na patogênese das úlceras gástricas.

Outros Compostos

As folhas também contêm alcaloides sesquiterpênicos piridínicos (como a maitansinina), polissacarídeos, óleos essenciais e ácido clorogênico. Esses compostos contribuem para as atividades antitumoral, anti-inflamatória e antimicrobiana descritas em estudos laboratoriais.

Benefícios Comprovados

Proteção Gástrica e Ação Antiulcerogênica

O benefício mais estudado e comprovado da espinheira-santa é sua ação protetora sobre a mucosa gástrica. Essa propriedade foi extensivamente investigada no Programa de Pesquisa de Plantas Medicinais da CEME na década de 1980, com resultados que se tornaram referência na fitoterapia brasileira e mundial.

Os estudos pré-clínicos demonstraram que extratos de espinheira-santa reduzem as lesões gástricas induzidas por diferentes agentes ulcerogênicos (indometacina, etanol, estresse), com eficácia comparável à da cimetidina e da ranitidina, medicamentos antiulcerosos amplamente utilizados na prática clínica.

O mecanismo de ação envolve múltiplos efeitos: redução da secreção de ácido clorídrico, aumento da secreção de muco protetor, aumento da produção de prostaglandinas citoprotetoras na mucosa gástrica e atividade antioxidante que protege contra danos oxidativos.

Resultados em Estudos Clínicos

Um ensaio clínico fundamental conduzido pela UFPR avaliou o efeito do extrato de espinheira-santa em pacientes com úlcera gástrica e duodenal. Os resultados demonstraram cicatrização completa das úlceras em porcentagem significativa dos pacientes tratados, com eficácia comparável aos antiácidos convencionais.

Outro estudo clínico avaliou o efeito da espinheira-santa em pacientes com dispepsia funcional (má digestão sem causa orgânica identificável). Os pacientes relataram melhora significativa nos sintomas de dor epigástrica, azia, sensação de plenitude e eructação após o tratamento com extrato padronizado de espinheira-santa.

Ação Antiacida

A espinheira-santa demonstrou capacidade de reduzir a acidez gástrica em estudos com modelos experimentais. O mecanismo proposto envolve a inibição da bomba de prótons (H+/K+-ATPase) nas células parietais gástricas, de forma semelhante, porém mais suave, aos inibidores de bomba de prótons (IBPs) sintéticos como o omeprazol.

Propriedades Anti-inflamatórias Gástricas

A ação anti-inflamatória local da espinheira-santa sobre a mucosa gástrica contribui para o alívio da gastrite e para a prevenção de novas lesões. Os flavonoides e triterpenos da planta modulam a resposta inflamatória local, reduzindo a infiltração de neutrófilos e a produção de espécies reativas de oxigênio no tecido gástrico.

Atividade Antimicrobiana contra Helicobacter pylori

Estudos laboratoriais recentes investigaram a atividade de extratos de espinheira-santa contra a bactéria Helicobacter pylori, principal causadora de gastrite crônica e úlcera péptica. Os resultados mostraram atividade inibitória in vitro, sugerindo que a planta pode complementar o tratamento convencional da infecção. No entanto, são necessários estudos clínicos para confirmar essa aplicação.

A Espinheira-Santa no SUS e na ANVISA

A espinheira-santa é um dos fitoterápicos mais consolidados no sistema público de saúde brasileiro. A ANVISA aprova o registro de medicamentos fitoterápicos à base de Maytenus ilicifolia com indicações como dispepsia (má digestão), gastrite e coadjuvante no tratamento de úlcera gástrica e duodenal.

O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira estabelece monografias detalhadas para a infusão e a tintura de espinheira-santa, com parâmetros de qualidade, posologia e precauções. A Farmacopeia Brasileira inclui monografia da droga vegetal, garantindo padrões para identificação e controle de qualidade.

A espinheira-santa figura na RENISUS e na RENAME como fitoterápico, sendo distribuída em diversas formas farmacêuticas por programas municipais de fitoterapia em todo o Brasil. O programa de fitoterapia de Curitiba (PR) é uma das referências nacionais, produzindo e distribuindo cápsulas e tinturas de espinheira-santa nas unidades de saúde do município.

Como Preparar e Utilizar

Infusão (Chá)

A forma mais simples e acessível. Utilize 2 a 3 gramas de folhas secas (aproximadamente uma colher de sopa) para cada 150 ml de água fervente. Despeje a água sobre as folhas, tampe e deixe em infusão por 10 a 15 minutos. Coe e consuma morno. Recomenda-se tomar de duas a três xícaras por dia, preferencialmente 30 minutos antes das refeições, para que o efeito protetor esteja ativo quando o alimento chegar ao estômago.

Tintura (Extrato Hidroalcoólico)

A tintura de espinheira-santa é disponível em farmácias de manipulação e em programas de fitoterapia do SUS. A dose usual é de 5 a 10 ml por dia, diluída em meio copo de água, dividida em duas a três tomadas, antes das refeições.

Cápsulas de Extrato Seco

As cápsulas de extrato seco padronizado oferecem conveniência e precisão na dosagem. A dose usual é de 380 a 760 mg de extrato seco por dia, dividida em duas a três tomadas. Siga sempre a orientação do profissional de saúde ou as instruções do fabricante.

Duração do Tratamento

O tratamento com espinheira-santa para condições como gastrite e dispepsia pode se estender por quatro a seis semanas. Para úlceras gástricas ou duodenais, o tratamento pode ser mais longo, mas deve ser sempre acompanhado por um profissional de saúde, incluindo acompanhamento endoscópico quando indicado.

Contraindicações

A espinheira-santa é contraindicada durante a gestação. Estudos experimentais demonstraram que a planta pode reduzir a implantação de embriões e possui efeito estrogênico fraco, o que poderia interferir no desenvolvimento da gravidez. Mulheres que estão tentando engravidar também devem evitar o uso.

Lactantes não devem utilizar espinheira-santa sem orientação médica, pois não há dados suficientes sobre a excreção dos princípios ativos no leite materno. Alguns estudos sugerem que a planta pode reduzir a produção de leite.

Crianças menores de 6 anos não devem utilizar espinheira-santa, e crianças entre 6 e 12 anos devem usar apenas com prescrição de profissional de saúde.

Pessoas com hipersensibilidade a qualquer componente da planta devem evitar o uso. Em casos raros, podem ocorrer reações como náusea, boca seca e sensação de boca amarga, geralmente leves e transitórias.

É importante ressaltar que a espinheira-santa não substitui o diagnóstico médico. Sintomas gástricos persistentes podem indicar condições que requerem investigação, como úlceras complicadas, refluxo gastroesofágico severo ou, em casos raros, neoplasias gástricas. Sempre consulte um profissional de saúde para diagnóstico adequado.

Conservação e Sustentabilidade

Um aspecto relevante sobre a espinheira-santa é a questão da conservação. Devido à alta demanda comercial e ao extrativismo predatório, populações naturais da espécie vêm sofrendo redução em algumas regiões. A Maytenus ilicifolia já figura em listas de espécies com preocupação de conservação em alguns estados brasileiros.

Iniciativas de cultivo sustentável têm sido implementadas por universidades, organizações não governamentais e programas governamentais para garantir a oferta da planta sem comprometer as populações naturais. Quando possível, prefira adquirir espinheira-santa de fontes que pratiquem o cultivo sustentável.

Referências

  • ANVISA. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição. Brasília, 2021.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. RENISUS - Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. Brasília, 2009.
  • CARLINI, E. A. (org.). Estudo de ação antiúlcera gástrica de plantas brasileiras: Maytenus ilicifolia (espinheira-santa) e outras. Brasília: CEME/AFIP, 1988.
  • CIPRIANI, T. R. et al. Gastroprotective effect of a type I arabinogalactan from soybean meal. Food Chemistry, v. 115, n. 2, p. 687-690, 2009.
  • JORGE, R. M. et al. Evaluation of antinociceptive, anti-inflammatory and antiulcerogenic activities of Maytenus ilicifolia. Journal of Ethnopharmacology, v. 94, n. 1, p. 93-100, 2004.
  • MOSSI, A. J. et al. Chemical variation of tannins and triterpenes in Brazilian populations of Maytenus ilicifolia. Brazilian Journal of Biology, v. 69, n. 2, p. 339-345, 2009.
  • SOUZA-FORMIGONI, M. L. O. et al. Antiulcerogenic effects of two Maytenus species in laboratory animals. Journal of Ethnopharmacology, v. 34, n. 1, p. 21-27, 1991.
⚠️ Aviso Importante Este conteúdo é apenas informativo e educacional, não constituindo aconselhamento médico ou farmacêutico. Não substitui a orientação de um profissional de saúde qualificado. Consulte um médico ou farmacêutico antes de usar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando, tomando medicamentos ou possuir condições de saúde pré-existentes.
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