O gengibre é uma das especiarias medicinais mais antigas e versáteis do mundo. Utilizado há milênios na medicina tradicional chinesa, indiana (Ayurveda) e em diversas culturas asiáticas, o gengibre chegou ao Brasil durante o período colonial e se adaptou perfeitamente ao clima tropical. Hoje, é presença obrigatória tanto na culinária quanto nos remédios caseiros dos brasileiros — do quentão junino ao chá para gripe, passando por sucos detox e compressas para dores.
Mas o que a ciência realmente diz sobre os benefícios do gengibre? Quais propriedades medicinais são comprovadas e quais ainda são tradicionais? E, tão importante quanto, quais são os cuidados e contraindicações? Neste artigo, vamos explorar tudo isso com base em evidências científicas e nas orientações de órgãos como a ANVISA e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Que é o Gengibre?
O gengibre (Zingiber officinale Roscoe) é uma planta herbácea perene pertencente à família Zingiberaceae, a mesma família da cúrcuma e do cardamomo. A parte utilizada como medicamento e condimento é o rizoma — um caule subterrâneo espesso e aromático, com sabor picante característico.
Originário do Sudeste Asiático, o gengibre é cultivado em regiões tropicais e subtropicais em todo o mundo. No Brasil, os principais estados produtores são Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A planta se desenvolve bem em solos férteis, bem drenados e com boa umidade.
O rizoma fresco contém cerca de 80% de água, além de carboidratos, fibras, proteínas, vitaminas (especialmente B6 e C) e minerais como potássio, magnésio e manganês.
Composição Química e Princípios Ativos
A atividade medicinal do gengibre está diretamente relacionada aos seus compostos bioativos, que se dividem em dois grandes grupos:
Compostos Pungentes (Oleorresina)
Os gingeróis são os principais compostos farmacologicamente ativos do gengibre fresco, sendo o 6-gingerol o mais abundante e estudado. Durante a secagem ou cozimento, os gingeróis se convertem em shogaóis, que possuem potência anti-inflamatória e antioxidante ainda maior. Além desses, a oleorresina contém zingerona, paradóis e outros compostos fenólicos.
Óleo Essencial
O óleo essencial do gengibre é composto por monoterpenos e sesquiterpenos, como zingibereno, bisaboleno, curcumeno e farneseno. Esses compostos contribuem para o aroma característico e possuem atividade antimicrobiana e anti-inflamatória complementar.
Propriedades Medicinais Comprovadas
Ação Antiemética (Contra Náuseas e Vômitos)
A propriedade mais bem documentada do gengibre é sua ação antiemética. Diversos ensaios clínicos randomizados e meta-análises demonstraram eficácia significativa contra:
- Náuseas da gravidez (hiperêmese gravídica): Uma revisão sistemática publicada na Cochrane Database analisou 12 ensaios clínicos e concluiu que o gengibre é superior ao placebo no alívio de náuseas durante o primeiro trimestre. A OMS reconhece essa indicação, e a dose segura recomendada na gravidez é de até 1 g de gengibre seco por dia, por períodos curtos.
- Náuseas pós-operatórias: Meta-análises publicadas nos periódicos Anesthesia & Analgesia e British Journal of Anaesthesia confirmaram que o gengibre reduz significativamente a incidência de náuseas e vômitos após cirurgias.
- Cinetose (enjoo de movimento): Estudos demonstram eficácia comparável a medicamentos convencionais como a dimenidrinato para enjoos em viagens.
O mecanismo antiemético envolve a ação dos gingeróis e shogaóis sobre receptores serotoninérgicos (5-HT3) no trato gastrointestinal, os mesmos receptores-alvo de fármacos antieméticos como a ondansetrona.
Ação Anti-inflamatória e Analgésica
Os gingeróis e shogaóis inibem a produção de prostaglandinas e leucotrienos, mediadores químicos da inflamação, por meio da inibição das enzimas ciclo-oxigenase (COX-2) e lipo-oxigenase (5-LOX). Esse mecanismo é similar ao de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) como o ibuprofeno.
Ensaios clínicos demonstraram que o consumo regular de gengibre pode reduzir:
- Dores musculares induzidas por exercício físico (redução de até 25% da intensidade da dor)
- Dores articulares em pacientes com osteoartrite de joelho, com eficácia comparável ao ibuprofeno em alguns estudos
- Dor menstrual (dismenorreia), com resultados semelhantes ao ácido mefenâmico em ensaios clínicos iraneses
Ação Digestiva
O gengibre é reconhecido pela ANVISA como auxiliar digestivo no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira. Seus compostos estimulam a produção de saliva, bile e enzimas digestivas, acelerando o esvaziamento gástrico. Isso o torna útil em quadros de dispepsia funcional, sensação de estufamento e digestão lenta.
Ação Expectorante e sobre o Sistema Respiratório
O uso do gengibre para gripes e resfriados é um dos mais populares no Brasil. A planta possui ação expectorante leve, ajudando a fluidificar secreções respiratórias. Além disso, o shogaol demonstrou atividade antitussígena em estudos pré-clínicos, e o óleo essencial possui propriedades antimicrobianas que podem auxiliar em infecções das vias aéreas superiores. Essas propriedades complementam bem o uso do guaco em quadros respiratórios.
Como Usar o Gengibre
Existem diversas formas de utilizar o gengibre com finalidade medicinal. A escolha depende da indicação e da praticidade desejada.
Chá de Gengibre (Infusão/Decocção)
O chá é a forma mais popular de uso do gengibre no Brasil. Para preparar corretamente:
- Rale ou corte em fatias finas 1 a 2 cm de rizoma fresco (aproximadamente 5 g)
- Coloque em uma panela com 250 ml de água
- Leve ao fogo e deixe ferver por 5 a 10 minutos (método de decocção)
- Coe e, se desejar, adicione gotas de limão e mel
- Tome 2 a 3 xícaras ao dia, preferencialmente após as refeições
Para mais detalhes sobre técnicas de preparo, consulte nosso artigo sobre como fazer chá medicinal corretamente.
Gengibre Fresco Ralado
Adicionar gengibre ralado em sucos, sopas, molhos e pratos diversos é uma forma prática de incorporar os benefícios no dia a dia. A dose recomendada é de 2 a 4 g de gengibre fresco por dia.
Gengibre em Pó (Seco)
O gengibre em pó é mais concentrado — a dose equivalente é de 0,5 a 1 g por dia. Pode ser adicionado a chás, smoothies, leite dourado (golden milk) ou cápsulas.
Compressas
Para dores musculares e articulares localizadas, compressas mornas com chá concentrado de gengibre podem proporcionar alívio. Aplique sobre a região afetada por 15 a 20 minutos.
Contraindicações e Cuidados
Embora o gengibre seja considerado seguro quando consumido em doses alimentares e medicinais recomendadas, existem situações que exigem cuidado:
Gestantes
O uso é considerado seguro em doses de até 1 g de gengibre seco por dia para náuseas da gravidez, por períodos curtos (até 4 dias consecutivos). Doses maiores devem ser evitadas, pois há preocupações teóricas sobre efeitos uterotônicos em doses elevadas. Sempre consulte o obstetra antes de usar.
Distúrbios de Coagulação e Anticoagulantes
O gengibre possui ação antiagregante plaquetária leve. Pacientes em uso de anticoagulantes (varfarina, heparina) ou antiplaquetários (ácido acetilsalicílico, clopidogrel) devem ter cautela e informar o médico sobre o consumo regular de gengibre. Veja mais sobre esse tema no artigo sobre interações entre plantas medicinais e medicamentos.
Cálculos Biliares
O gengibre estimula a produção e secreção de bile (ação colagoga). Pessoas com cálculos biliares ou obstrução das vias biliares devem evitar o consumo medicinal, pois a estimulação biliar pode desencadear crises de cólica.
Pré-operatório
Recomenda-se suspender o uso de gengibre pelo menos 7 dias antes de cirurgias, devido ao risco teórico de sangramento aumentado.
Doses Excessivas
O consumo de doses muito elevadas (acima de 6 g de pó por dia) pode causar azia, desconforto gástrico e diarreia. Em casos raros, pode provocar arritmias cardíacas e depressão do sistema nervoso central.
O Gengibre no Sistema Público de Saúde
A ANVISA reconhece o gengibre como planta medicinal com indicações terapêuticas documentadas. O rizoma consta no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, com indicações como antiemético e auxiliar digestivo. O gengibre também está presente na lista de plantas medicinais utilizadas no SUS, dentro do contexto da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC).
A Farmacopeia Brasileira estabelece padrões de qualidade para a matéria-prima vegetal, incluindo teores mínimos de óleos essenciais e marcadores químicos, garantindo a segurança e eficácia do fitoterápico.
Referências
- ANVISA. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição. Brasília, 2021.
- BRASIL. Ministério da Saúde. RENISUS — Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. Brasília, 2009.
- ERNST, E.; PITTLER, M. H. Efficacy of ginger for nausea and vomiting: a systematic review. British Journal of Anaesthesia, v. 84, n. 3, p. 367-371, 2000.
- MASHHADI, N. S. et al. Anti-oxidative and anti-inflammatory effects of ginger in health and physical activity. International Journal of Preventive Medicine, v. 4, Suppl 1, p. S36-S42, 2013.
- VILJOEN, E. et al. A systematic review and meta-analysis of the effect and safety of ginger in the treatment of pregnancy-associated nausea and vomiting. Nutrition Journal, v. 13, p. 20, 2014.
- TERRY, R. et al. The use of ginger (Zingiber officinale) for the treatment of pain: a systematic review. Pain Medicine, v. 12, n. 12, p. 1808-1818, 2011.
- WHO. WHO monographs on selected medicinal plants, v. 1. Geneva: World Health Organization, 1999.
Aviso importante: Este conteúdo é informativo e educacional, não substitui orientação médica profissional. Plantas medicinais possuem princípios ativos que podem causar efeitos adversos e interações medicamentosas. Consulte um profissional de saúde antes de iniciar qualquer tratamento fitoterápico. Em caso de sintomas graves, procure atendimento médico imediatamente.