Guaco: Remédio Natural para Tosse e Gripe | Guia Plantas Medicinais

O Que é o Guaco?

O guaco (Mikania glomerata Spreng. e Mikania laevigata Sch. Bip. ex Baker) é uma trepadeira nativa do Brasil pertencente à família Asteraceae. Amplamente distribuído em biomas como a Mata Atlântica e o Cerrado, o guaco é uma das plantas medicinais brasileiras mais importantes e um caso exemplar de sucesso na integração entre conhecimento tradicional e validação científica.

Popularmente conhecido também como guaco-liso, guaco-de-cheiro ou erva-de-serpente, o guaco é utilizado há séculos por comunidades tradicionais brasileiras para o tratamento de problemas respiratórios, especialmente tosse, bronquite e gripe. O nome “erva-de-serpente” faz referência ao uso histórico da planta como antídoto para picadas de cobra, embora essa aplicação não possua respaldo científico.

O que torna o guaco especialmente relevante no cenário da fitoterapia brasileira é o fato de ser uma das poucas plantas medicinais nativas com fitoterápico registrado na ANVISA e disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O xarope de guaco é distribuído em Unidades Básicas de Saúde de diversos municípios brasileiros, representando um marco na política de plantas medicinais do país.

Composição Química e Princípios Ativos

Cumarina

O principal princípio ativo do guaco é a cumarina (1,2-benzopirona), composto presente em concentrações significativas nas folhas da planta. A cumarina é responsável pelo aroma característico de feno recém-cortado que as folhas exalam, especialmente quando secas. Esse composto possui propriedades broncodilatadoras, anti-inflamatórias e anticoagulantes que fundamentam as indicações terapêuticas da planta.

Ácido Caurenóico

O ácido caurenóico (ácido ent-caur-16-en-19-oico) é um diterpeno encontrado no guaco com propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e relaxantes da musculatura lisa brônquica. Estudos farmacológicos demonstraram que esse composto contribui significativamente para o efeito broncodilatador da planta.

Outros Compostos

As folhas de guaco também contêm ácidos clorogênico e dicafeoilquínico, flavonoides, terpenoides, taninos e resinas. Essa diversidade de compostos bioativos explica a ampla gama de atividades farmacológicas atribuídas à planta e o efeito sinérgico observado em preparações fitoterápicas.

Mecanismo de Ação: Como o Guaco Funciona

Efeito Broncodilatador

A cumarina e o ácido caurenóico atuam relaxando a musculatura lisa dos brônquios, o que resulta na abertura das vias aéreas e facilita a passagem do ar. Estudos in vitro realizados com traqueia isolada demonstraram que extratos de guaco provocam relaxamento dose-dependente da musculatura brônquica, com potência comparável à da teofilina, um broncodilatador sintético clássico.

O mecanismo proposto envolve a inibição da fosfodiesterase e o bloqueio dos canais de cálcio na musculatura lisa brônquica, reduzindo o tônus muscular e aliviando o broncoespasmo.

Efeito Expectorante

O guaco aumenta a secreção de muco nas vias respiratórias e reduz sua viscosidade, facilitando a eliminação de secreções acumuladas nos brônquios e pulmões. Esse efeito é particularmente útil em quadros de tosse produtiva, bronquite e estados gripais com congestão.

Ação Anti-inflamatória

A cumarina e outros compostos presentes no guaco possuem ação anti-inflamatória sobre as vias respiratórias. Estudos demonstraram redução dos níveis de mediadores inflamatórios como prostaglandinas e leucotrienos nos tecidos pulmonares, o que contribui para o alívio do edema brônquico e da irritação das vias aéreas.

Evidências Científicas

Estudos Pré-clínicos

Pesquisas realizadas por universidades brasileiras, incluindo a UNICAMP, a USP e a UFPR, forneceram sólida base científica para o uso do guaco em doenças respiratórias. Estudos in vivo demonstraram que o extrato de Mikania glomerata reduz significativamente a resistência das vias aéreas em modelos de asma experimental, com eficácia comparável a broncodilatadores convencionais.

Um estudo publicado no Journal of Ethnopharmacology avaliou o efeito anti-inflamatório do extrato de guaco em modelo de pleurisia e demonstrou redução significativa do exsudato inflamatório e da migração de leucócitos para o espaço pleural.

Estudos Clínicos

Ensaios clínicos, embora ainda em número limitado, demonstraram resultados promissores. Um estudo conduzido em pacientes com bronquite crônica mostrou que o xarope de guaco melhorou significativamente os parâmetros de função pulmonar e reduziu a frequência e intensidade da tosse após duas semanas de tratamento.

Outro estudo avaliou o xarope de guaco em crianças com tosse associada a infecções respiratórias e relatou melhora clínica significativa, com boa aceitação do sabor e ausência de efeitos adversos relevantes.

Reconhecimento Oficial

A ANVISA aprova o uso de fitoterápicos à base de guaco como expectorante e broncodilatador. O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira inclui monografias para tintura e xarope de guaco, estabelecendo parâmetros de qualidade e posologia. A planta consta na RENISUS e na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) como fitoterápico, consolidando seu papel na saúde pública brasileira.

Como Preparar o Guaco

Xarope de Guaco (Receita Tradicional)

O xarope de guaco é a forma de preparo mais popular e eficaz. Para preparar em casa, utilize 20 gramas de folhas frescas de guaco para cada litro de água. Ferva a água, adicione as folhas e mantenha em fogo baixo por 10 minutos. Coe e, ao líquido resultante, adicione açúcar ou mel na proporção de uma parte de açúcar para duas partes de infusão, mexendo até dissolver completamente.

A dose recomendada para adultos é de uma colher de sopa (15 ml), três a quatro vezes ao dia. Para crianças acima de 6 anos, a dose é de uma colher de chá (5 ml), três vezes ao dia. O xarope caseiro deve ser armazenado em geladeira e consumido em até sete dias.

Infusão (Chá de Guaco)

Utilize 3 gramas de folhas secas (aproximadamente uma colher de sopa) para cada 150 ml de água fervente. Despeje a água sobre as folhas, tampe e deixe em infusão por 10 a 15 minutos. Coe e beba. A recomendação é de duas a três xícaras ao dia.

Xarope Industrializado

Os xaropes de guaco comercializados em farmácias são padronizados quanto ao teor de cumarina e passam por controle de qualidade exigido pela ANVISA. A vantagem do produto industrializado é a padronização da dosagem e a maior durabilidade. Siga sempre a posologia indicada na bula ou prescrita pelo profissional de saúde.

Tintura de Guaco

A tintura (extrato hidroalcoólico) de guaco pode ser encontrada em farmácias de manipulação. A dose usual para adultos é de 2 a 4 ml, diluída em água, três vezes ao dia. A tintura é uma forma prática para quem não pode preparar o chá ou o xarope.

O Guaco no SUS

O guaco é um caso emblemático da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Diversos municípios brasileiros mantêm programas de fitoterapia que incluem o cultivo de guaco em hortas medicinais comunitárias e a produção de xarope em farmácias públicas de manipulação.

Cidades como Londrina (PR), Vitória (ES) e Florianópolis (SC) são referências na produção e distribuição de xarope de guaco pelo SUS. Esses programas não apenas oferecem uma alternativa terapêutica eficaz e de baixo custo, mas também valorizam a biodiversidade brasileira e o conhecimento tradicional associado.

Contraindicações

Apesar do bom perfil de segurança, o guaco possui contraindicações que devem ser respeitadas. Pessoas em uso de anticoagulantes (varfarina, heparina, aspirina em doses anticoagulantes) devem evitar o guaco, pois a cumarina pode potencializar o efeito anticoagulante, aumentando o risco de sangramentos.

Gestantes não devem utilizar guaco, pois estudos experimentais sugerem potencial efeito embriotóxico. Lactantes devem evitar o uso até que haja dados suficientes de segurança.

Pacientes com doenças hepáticas devem ter cautela, uma vez que doses elevadas de cumarina podem ser hepatotóxicas. O uso do guaco em crianças menores de 6 anos deve ser feito exclusivamente sob orientação médica.

O uso prolongado por mais de uma semana consecutiva sem orientação de um profissional de saúde é desaconselhado. Em caso de persistência da tosse por mais de sete dias, agravamento dos sintomas ou febre alta, procure atendimento médico, pois esses sinais podem indicar condições que requerem tratamento específico.

Referências

  • ANVISA. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição. Brasília, 2021.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. RENISUS - Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. Brasília, 2009.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. RENAME - Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. Brasília, 2022.
  • FIERRO, I. M. et al. Studies on the anti-allergic activity of Mikania glomerata. Journal of Ethnopharmacology, v. 66, n. 1, p. 19-24, 1999.
  • MOURA, R. S. et al. Bronchodilator activity of Mikania glomerata Sprengel on human bronchi and guinea-pig trachea. Journal of Pharmacy and Pharmacology, v. 54, n. 2, p. 249-256, 2002.
  • SANTOS, S. C. et al. LC characterization of guaco medicinal extracts, Mikania laevigata and M. glomerata, and their effects on allergic pneumonitis. Planta Medica, v. 72, n. 8, p. 679-684, 2006.
  • SUYENAGA, E. S. et al. Antiinflammatory investigation of some species of Mikania. Phytotherapy Research, v. 16, n. 6, p. 519-523, 2002.
⚠️ Aviso Importante Este conteúdo é apenas informativo e educacional, não constituindo aconselhamento médico ou farmacêutico. Não substitui a orientação de um profissional de saúde qualificado. Consulte um médico ou farmacêutico antes de usar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando, tomando medicamentos ou possuir condições de saúde pré-existentes.
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