O poejo (Mentha pulegium) é uma menta de cheiro forte usada em receitas populares para digestão, tosse, cólica menstrual e “atraso”, mas o chá caseiro e, sobretudo, o óleo essencial carregam risco documentado de intoxicação hepática e de dano na gravidez. O composto mais preocupante é a pulegona, monoterpeno concentrado no óleo essencial: relatos clínicos associam a ingestão a falência hepática, convulsões e óbito. Não existe dose doméstica segura estabelecida para “descer a menstruação”, emagrecer, limpar o fígado ou tratar verminose. Gestantes, lactantes, crianças e pessoas com doença hepática devem evitar completamente o uso medicinal.
Este guia separa o que a tradição e a toxicologia permitem afirmar, explica por que o poejo não é uma hortelã comum e indica quando procurar atendimento. O objetivo é prevenir dano, não fornecer receita terapêutica.
Resposta rápida: poejo serve para quê?
| Uso popular | O que é prudente dizer | Principal risco |
|---|---|---|
| Digestão, gases, “chá de barriga” | há tradição popular, mas faltam ensaios clínicos robustos com o chá | confusão com hortelãs mais seguras e dose imprevisível |
| Tosse, gripe, resfriado | não substitui avaliação, hidratação nem tratamento indicado | atraso diagnóstico; irritação; risco do óleo |
| Cólica menstrual | não há evidência que justifique o risco | efeito uterotônico e toxicidade |
| “Descer a menstruação” / atraso | uso inaceitável por conta própria | aborto, hemorragia, intoxicação grave |
| Abortivo caseiro | nunca deve ser usado com essa finalidade | falência hepática, convulsão, óbito materno |
| Óleo essencial oral | proibido por conta própria em qualquer dose | hepatotoxicidade aguda da pulegona |
| Emagrecer / “desintoxicar” | mito | perda de água não é emagrecimento; risco hepático |
| Crianças | não oferecer | menor massa corporal, maior risco relativo |
A conclusão prática é curta: poejo não é planta de automedicação. Se o problema é digestão leve, compare com opções discutidas com mais cautela no guia de hortelã. Se o problema é atraso menstrual ou gravidez possível, procure a UBS ou atendimento de confiança — não um chá tóxico. A FAQ sobre plantas na gravidez reforça esse raciocínio.
Que planta é o poejo?
O poejo europeu é Mentha pulegium L., da família Lamiaceae — a mesma família da hortelã, do manjericão e do tomilho. Também aparece como poejo-verdadeiro, hortelã-poejo ou pennyroyal em textos em inglês. É uma erva rasteira ou ereta, de folhas pequenas e odor mentolado intenso, com tom cânfora.
Há um segundo problema de identidade: em alguns mercados e textos circula o poejo-americano (Hedeoma pulegioides), outra espécie também rica em pulegona. Nomes populares não distinguem as duas. Um pacote escrito só “poejo”, “menta poejo” ou “pennyroyal” não confirma a espécie, a parte usada nem a concentração de pulegona.
Não confunda poejo com:
- hortelã / Mentha × piperita e Mentha spicata, usadas com mais frequência em digestão;
- outras mentas aromáticas de quintal;
- misturas a granel sem lote, validade e nome científico.
Confirme nome científico, parte vegetal, procedência e lote antes de qualquer uso, como orientamos em como ler o rótulo de fitoterápicos. Colher “de orelhada” no quintal, por foto de aplicativo ou por indicação informal, aumenta o risco de erro.
O que a planta contém: pulegona e óleo essencial
Análises químicas do óleo essencial de Mentha pulegium descrevem pulegona como constituinte majoritário em muitas amostras, acompanhada de mentona, isomentona e outros monoterpenos. A proporção muda com a variedade, o solo, a época de colheita, a secagem e o método de destilação — o que torna qualquer “receita de xícara” imprevisível.
Pontos essenciais:
- A pulegona é metabolizada no fígado a intermediários reativos associados a lesão hepatocelular.
- O óleo essencial concentra esses compostos em volume muito pequeno: algumas gotas podem equivaler a muitas folhas.
- Uma infusão, uma decocção prolongada, uma tintura e o óleo não são equivalentes. Cozinhar mais tempo ou usar mais planta não melhora o efeito — aumenta a exposição.
- Óleo essencial não é “chá concentrado seguro”. É uma preparação industrial/artesanal com toxicidade própria.
Por isso o poejo aparece em listas de alerta toxicológico junto a outras plantas caseiras de alto risco, no mesmo espírito dos guias de arruda, losna/absinto e mastruz.
Uso tradicional: o que significa e o que não prova
Registros etnobotânicos europeus e americanos descrevem o poejo como digestivo, carminativo, expectorante e, historicamente, como estimulante menstrual e abortivo. No Brasil, o chá aparece em receitas de família para “barriga”, gripe, cólica e atraso menstrual. Uso tradicional é patrimônio cultural e fonte de hipóteses — não é comprovação de eficácia nem de segurança doméstica.
Três equívocos frequentes:
- “É menta, então é suave.” Nem toda menta tem o mesmo perfil químico. A presença relevante de pulegona separa o poejo das hortelãs de uso alimentar habitual.
- “Se a avó usava, a dose é segura.” Relatos históricos também incluem intoxicações; sobrevivência de uma tradição não valida a prática.
- “Chá é seguro; só o óleo faz mal.” O óleo é a forma mais perigosa, mas chá forte, repetido ou feito com material muito rico em óleo também pode intoxicar — sobretudo em crianças e gestantes.
Para sintomas respiratórios leves, veja o panorama crítico em gripe, resfriado e plantas. Para crianças, o guia de xarope caseiro e tosse e a FAQ infantil deixam claro: não ofereça poejo.
Hepatotoxicidade e intoxicação: o que a literatura descreve
A toxicologia clínica do poejo — em especial do óleo essencial — está entre as mais documentadas de plantas aromáticas de uso popular. Relatos e revisões descrevem, após ingestão:
- náusea, vômitos, dor abdominal e diarreia;
- tontura, agitação, confusão e sonolência;
- elevação intensa de enzimas hepáticas e falência hepática aguda;
- coagulação alterada, sangramentos e icterícia;
- convulsões, coma e óbito em casos graves;
- em gestantes, sangramento, contrações e aborto, com risco materno associado.
Não é preciso “exagerar a dose de propósito” para o risco existir: a concentração de pulegona varia, a pessoa pode ter fígado já vulnerável (álcool, hepatite viral, medicamentos hepatotóxicos, esteatose) e crianças têm menor reserva. Não existe dose oral doméstica de óleo de poejo considerada segura.
Se alguém ingeriu chá concentrado, várias xícaras, tintura ou qualquer quantidade de óleo e apresenta vômitos persistentes, dor abdominal intensa, sonolência, confusão, pele ou olhos amarelados, sangramento, convulsão ou desmaio, procure emergência e acione o SAMU 192. Em exposição a plantas e produtos, o Disque-Intoxicação da ANVISA (0800 722 6001) orienta o manejo. Não provoque vômito por conta própria. O passo a passo geral está em chá ou fitoterápico fez mal: o que fazer.
Poejo, gravidez e atraso menstrual
Esta é a razão número um para esta página existir. Historicamente o poejo foi usado para “descer a regra” e interromper gravidez. A associação entre pulegona, efeito uterotônico e toxicidade sistêmica torna essa prática inaceitável:
- Não é método contraceptivo nem abortivo seguro. Casos descritos envolvem internação, falência hepática e morte.
- A intoxicação pode ocorrer sem interromper a gravidez, resultando em dano à gestante e possível dano fetal.
- Atraso menstrual não é diagnóstico. Pode ser estresse, alteração de peso, tireoide, SOP, medicamentos, perimenopausa ou gravidez. Tratar o sintoma com planta hepatotóxica não responde à causa.
Quem está grávida, planeja engravidar, amamenta ou tem dúvida sobre atraso deve procurar atendimento — nunca chá de poejo, garrafada ou “gotas”. O guia de plantas na amamentação e a FAQ de gestantes detalham o princípio da precaução. Para cólica menstrual sem gravidez suspeita, há caminhos discutidos com bem mais segurança em cólica menstrual e plantas — e mesmo neles a automedicação tem limites.
O mesmo alerta vale para outras plantas com fama abortiva ou uterotônica no Brasil, como arruda e guiné.
Quem deve evitar o poejo
As recomendações abaixo combinam toxicologia da pulegona com o princípio da precaução diante da ausência de dose caseira segura.
| Situação | Por que exige cuidado |
|---|---|
| Gravidez confirmada ou possível | risco de aborto e de intoxicação materna grave |
| Amamentação | falta de segurança; risco para o lactente |
| Crianças e adolescentes | maior risco relativo; nenhum benefício justifica |
| Doença hepática (hepatite, cirrose, esteatose importante) | alvo principal da toxicidade |
| Uso de álcool em excesso ou medicamentos hepatotóxicos | risco acumulado ao fígado |
| Epilepsia ou histórico de convulsão | convulsões descritas em intoxicações |
| Distúrbios de coagulação ou pré-operatório | falência hepática altera coagulação; veja plantas antes de cirurgia |
| Polifarmácia | interações e sobrecarga metabólica imprevisíveis |
Interações medicamentosas
Não há um “mapa completo” de interações do chá de poejo em humanos, porque a planta não deveria ser usada por conta própria. Ainda assim, o mecanismo hepático e os relatos clínicos tornam especialmente inadequada a combinação com:
- medicamentos com potencial hepatotóxico (alguns antibióticos, antifúngicos, anticonvulsivantes, doses altas de paracetamol);
- anticoagulantes e antiagregantes, se houver lesão hepática;
- sedativos, álcool e outras substâncias que confundem o reconhecimento precoce de encefalopatia;
- qualquer esquema em que o fígado seja crítico para metabolizar o remédio de janela estreita.
Leve o pacote, o nome científico e a forma usada à consulta. O guia de interações medicamentosas com plantas explica como organizar essa conversa.
ANVISA, SUS e o que o enquadramento não autoriza
No Brasil, a ANVISA diferencia alimento, droga vegetal, medicamento fitoterápico, produto tradicional fitoterápico, suplemento e cosmético. Não existe autorização para automedicação com óleo essencial de poejo por via oral, nem indicação oficial de chá de poejo como abortivo, emagrecedor ou “limpador de fígado”.
Antes de comprar qualquer produto:
- verifique identidade botânica, lote, validade e responsável;
- desconfie de promessas de “descer menstruação”, “resultado garantido” ou “natural sem risco”;
- use os guias de como consultar fitoterápico na ANVISA, produto natural sem registro e propaganda enganosa.
A presença de uma planta em listas de interesse do SUS, quando aplicável a outras espécies, indica potencial de estudo ou uso em serviço habilitado — não libera chá caseiro de poejo. O panorama da fitoterapia no SUS deixa essa distinção clara.
Poejo no quintal: o que fazer com a planta
Cultivar poejo como aromática ornamental ou reconhecer a planta no jardim não é o problema. O risco aparece quando a tradição vira ingestão — chá forte, “garrafada”, cápsula informal ou gotas de óleo.
Se você mantém a planta em casa:
- identifique-a com o nome científico e não a misture com hortelãs destinadas a chá;
- mantenha fora do alcance de crianças e animais;
- não improvise destilação caseira de óleo essencial;
- não use a planta em compressas quentes fechadas no rosto de crianças nem em mucosas.
Para aromas mentolados em contexto culinário leve, prefira espécies habitualmente usadas como tempero e discuta qualquer uso medicinal com profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Poejo para que serve?
Na tradição popular, aparece como digestivo, para tosse e para cólica ou atraso menstrual. Do ponto de vista de segurança, o que se pode afirmar com clareza é o risco: a planta e sobretudo o óleo essencial contêm pulegona, associada a hepatotoxicidade e a dano na gravidez. Não há indicação doméstica que justifique esse risco.
Chá de poejo emagrece?
Não. Suor, diarreia ou restrição alimentar pontual não equivalem a emagrecimento sustentado, e a planta não tem esse efeito comprovado. Procurar emagrecer com planta hepatotóxica é um erro grave.
Óleo de poejo pode ser usado em aromaterapia?
Óleos essenciais exigem diluição, via correta e critério profissional; ingestão está fora de questão. Mesmo o uso tópico ou atmosférico de poejo não é banal: a composição é agressiva e a confusão com “menta suave” é comum. Na dúvida, não use.
Poejo é a mesma coisa que hortelã?
Não. Ambos são Lamiaceae e podem ter aroma mentolado, mas Mentha pulegium concentra pulegona de forma relevante. Tratar poejo como se fosse hortelã de tempero é um dos erros mais perigosos dessa planta.
Quantas xícaras de chá de poejo são seguras?
Não há dose caseira estabelecida como segura para uso medicinal, especialmente em gravidez, amamentação, infância e doença hepática. A pergunta útil não é “quantas xícaras”, e sim se há qualquer motivo para beber.
Poejo aborta?
A planta foi historicamente usada com essa intenção, e a toxicologia descreve aborto associado a intoxicação grave. Isso não a torna método de interrupção: os desfechos incluem falência hepática e óbito. Nunca use poejo com esse objetivo.
O que fazer se alguém tomou óleo ou chá forte de poejo?
Não espere os sintomas piorarem. Contate o Disque-Intoxicação 0800 722 6001 e, perante mal-estar importante, vá à emergência ou ligue 192. Leve a embalagem ou uma amostra da planta. Detalhes práticos estão em reação a chá e fitoterápico.
Referências
As fontes abaixo documentam toxicidade e composição, não validam chá ou óleo de poejo como tratamento. Referências oficiais brasileiras orientam enquadramento e uso racional; não aprovam os usos populares descritos.
- Anderson IB et al. Pennyroyal toxicity: measurement of toxic metabolite levels in two cases and review of the literature. Annals of Internal Medicine, 1996;124(8):726-734. PubMed: 8633832.
- Bakerink JA et al. Multiple organ failure after ingestion of pennyroyal oil from herbal tea in two infants. Pediatrics, 1996;98(5):944-947. PubMed: 8909490.
- Gordon WP et al. Hepatotoxicity and pulmonary toxicity of pennyroyal oil and its constituent terpenes in the mouse. Toxicology and Applied Pharmacology, 1982;65(3):413-424. PubMed: 7157374.
- European Medicines Agency (HMPC). Public statements and herbal monographs on Mentha species — consulte alertas sobre pulegona/mentofurano e limites em preparações herbais. EMA Herbal medicines.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Formulário de Fitoterápicos e Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira. Referência para formulações padronizadas — sem extrapolação automática para poejo caseiro.
- Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — RENAME. Ajuda a distinguir medicamento essencial de relato popular de planta.
- Disque-Intoxicação ANVISA: 0800 722 6001. Orientação em exposições a plantas, produtos químicos e medicamentos.
⚕️ Aviso importante: Este conteúdo é informativo e educacional e não substitui consulta médica ou farmacêutica, diagnóstico ou tratamento. Mentha pulegium (poejo) e seu óleo essencial apresentam risco documentado de hepatotoxicidade e de dano na gravidez; nenhum chá, tintura ou gota caseira trata, cura ou interrompe gestação com segurança. Não ingira óleo essencial de poejo. Gestantes, lactantes, crianças e pessoas com doença hepática devem evitar a planta. Não suspenda nem substitua tratamentos prescritos. Em suspeita de intoxicação, não provoque vômito e contate o Disque-Intoxicação 0800 722 6001; em emergência, acione o SAMU 192.