Grávidas podem usar plantas medicinais?

A gravidez é um período que exige extrema cautela com qualquer tipo de substância administrada pela gestante, incluindo plantas medicinais. A crença popular de que ervas e chás são inofensivos por serem naturais pode ser especialmente perigosa durante a gestação. Muitas espécies de uso comum são contraindicadas na gravidez porque podem provocar contrações uterinas, malformações fetais, aborto espontâneo ou complicações obstétricas graves. Esta é uma das situações de saúde em que a orientação médica é absolutamente indispensável antes de qualquer uso de plantas medicinais.

Por que a Gravidez Exige Cuidado Especial

Durante a gestação, a fisiologia materna passa por transformações profundas. O volume sanguíneo aumenta, o metabolismo hepático se altera, e os rins passam a filtrar maior quantidade de sangue. Essas mudanças afetam diretamente a forma como o organismo processa e elimina substâncias bioativas presentes nas plantas.

Além disso, os princípios ativos das plantas podem atravessar a barreira placentária e chegar à circulação fetal, expondo o bebê em desenvolvimento a compostos para os quais não existe nenhum mecanismo de proteção. Em determinados estágios do desenvolvimento embrionário e fetal, até mesmo pequenas concentrações de substâncias bioativas podem ter efeitos teratogênicos (causadores de malformações) ou fetotóxicos.

O sistema nervoso central, o coração, os membros e os órgãos vitais do bebê se desenvolvem em janelas temporais críticas durante o primeiro trimestre. É justamente nesse período que a vulnerabilidade ao dano de substâncias externas é maior — e ironicamente o mesmo período em que muitas mulheres, ainda sem saber da gravidez, podem estar usando chás medicinais habitualmente.

Plantas Perigosas Durante a Gravidez

Diversas plantas medicinais de uso popular devem ser evitadas por gestantes:

  • Arruda (Ruta graveolens): Possui propriedades abortivas amplamente documentadas na literatura científica e no conhecimento popular. Contém rutina, furanocumarinas e outros compostos que estimulam contrações uterinas intensas, podem causar hemorragias e intoxicação grave. O uso de arruda por gestantes representa risco de vida tanto para a mãe quanto para o feto.
  • Boldo (Peumus boldus) em doses elevadas: Contém ascaridol, substância com propriedades que podem ser tóxicas para o feto em doses medicamentosas. Estimula a secreção biliar e pode aumentar o tônus da musculatura uterina.
  • Sene (Senna alexandrina): Laxante potente que estimula intensamente a musculatura intestinal e uterina através de mecanismos irritativos, podendo provocar contrações prematuras.
  • Alecrim (Rosmarinus officinalis) em grandes quantidades: O consumo culinário é considerado seguro, mas o uso medicinal (doses concentradas, óleos essenciais, infusões fortes) pode estimular o útero e alterar a pressão arterial.
  • Canela em doses medicinais: Possui efeito estimulante uterino que pode representar risco de abortamento, especialmente no primeiro trimestre. O uso culinário em pequenas quantidades é geralmente considerado seguro.
  • Confrei (Symphytum officinale): Contém alcaloides pirrolizidínicos, compostos comprovadamente tóxicos para o fígado da mãe e do feto, com potencial carcinogênico e teratogênico.
  • Losna (Artemisia absinthium): Contém tujona, um composto neurotóxico e uterotônico. É absolutamente contraindicada na gravidez.
  • Barbatimão: Tem propriedades adstringentes intensas e pode interferir com a absorção de nutrientes essenciais para a gestação.
  • Hortelã em doses medicinais elevadas: O óleo essencial da hortelã pode ser uterotônico em concentrações altas. O uso culinário é geralmente seguro.
  • Maracujá (Passiflora edulis) e Passiflora: Embora a polpa seja segura como alimento, os extratos medicinais concentrados de passiflora podem ter efeitos sedativos e não possuem estudos de segurança adequados para gestantes.

Plantas Consideradas de Menor Risco

Algumas plantas têm um histórico de uso tradicional durante a gravidez sem relatos sistemáticos de dano, mas mesmo assim devem ser usadas somente com orientação médica:

  • Camomila em infusão leve: Considerada de menor risco para uso ocasional, embora altas doses devam ser evitadas.
  • Gengibre (Zingiber officinale): Estudos clínicos demonstraram eficácia e segurança razoável do gengibre para náuseas do primeiro trimestre, quando usado em doses baixas (500–1000 mg/dia de pó seco) por curto período. Deve ser usado sob orientação médica.
  • Erva-doce em uso culinário: Considerada segura em quantidades alimentares.

Atenção: “menor risco” não significa “sem risco”. Qualquer uso de planta medicinal durante a gravidez deve ser discutido com o obstetra.

O que Dizem a ANVISA e o SUS

A ANVISA, em seus guias e alertas sobre uso de plantas medicinais, é explícita ao afirmar que gestantes não devem utilizar plantas medicinais ou fitoterápicos sem prescrição médica. A Resolução RDC 26/2014 exige que as bulas de todos os fitoterápicos contenham informações sobre uso na gravidez e lactação.

O Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do SUS e o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira também reforçam que a orientação profissional é indispensável durante o período gestacional e de amamentação. A RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) inclui restrições específicas de uso gestacional para vários fitoterápicos.

Risco Durante a Amamentação

As preocupações não terminam com o nascimento do bebê. Durante a amamentação, os princípios ativos de plantas medicinais podem ser transferidos para o leite materno e, consequentemente, para o lactente. Plantas com alto teor de alcaloides, compostos amargos intensos e óleos essenciais potentes devem ser evitadas nesse período. Assim como ocorre com os medicamentos convencionais, cada planta deve ter seu uso avaliado individualmente para a lactante.

Sinais de Alerta na Gravidez

Se uma gestante consumiu alguma planta medicinal e apresentar qualquer um dos sintomas abaixo, deve procurar atendimento obstétrico de urgência imediatamente:

  • Contrações uterinas antes de 37 semanas
  • Sangramento vaginal
  • Dor abdominal intensa
  • Redução dos movimentos fetais
  • Febre
  • Icterícia (pele ou olhos amarelados)
  • Sintomas neurológicos (confusão, convulsões, dormência)

Recomendação Fundamental

Antes de utilizar qualquer planta medicinal durante a gravidez ou amamentação, consulte seu obstetra ou médico responsável pelo pré-natal. Esse profissional tem o histórico clínico completo da gestante, conhece as semanas de gestação, possíveis comorbidades e todos os medicamentos em uso — informações essenciais para avaliar o risco de qualquer intervenção terapêutica.

Mesmo plantas aparentemente inofensivas, usadas por gerações na família, podem oferecer riscos reais nesse período tão delicado. A segurança da mãe e do bebê não deve ser deixada ao acaso. Leia também sobre crianças e plantas medicinais para entender os cuidados necessários após o nascimento.


Aviso Importante: Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica profissional. Consulte sempre um médico ou farmacêutico antes de usar plantas medicinais, especialmente se estiver grávido(a), amamentando ou em uso de medicamentos.