O Que É
A macela (Achyrocline satureioides), também chamada de macela-do-campo, marcela, marcela-galega ou macela-da-terra, é uma das plantas medicinais mais queridas e enraizadas na cultura popular brasileira, especialmente na região Sul do país. Trata-se de uma planta herbácea da família Asteraceae, que se destaca por suas pequenas flores amarelo-douradas, aroma suave e agradável, e por uma riquíssima tradição de uso que combina saberes populares, religiosidade e ciência.
Encontrada abundantemente em campos nativos, cerrados e beiras de estrada em boa parte do território brasileiro, a macela é coletada principalmente entre os meses de março e abril, quando suas flores atingem o ponto ideal de maturação. No Rio Grande do Sul, a colheita ritual na Sexta-Feira Santa é uma tradição centenária que permanece viva e conecta gerações em torno desta planta.
Nome Científico e Origem
A macela pertence à espécie Achyrocline satureioides (Lam.) DC., da família Asteraceae (Compositae), compartilhando a mesma família botânica da camomila, da arnica e do picão-preto. A planta é nativa da América do Sul, com ocorrência natural no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
É uma planta herbácea que alcança de trinta a cinquenta centímetros de altura, com caule ereto e ramificado na porção superior, coberto por uma pilosidade esbranquiçada. As folhas são estreitas, lanceoladas, de coloração verde-acinzentada. As inflorescências são capítulos pequenos e globosos, de cor amarelo-ouro, reunidos em corimbos terminais. A parte utilizada na fitoterapia são justamente essas inflorescências (flores), que concentram os principais compostos bioativos.
Propriedades Medicinais
As flores da macela contêm uma composição fitoquímica rica e diversificada. Os principais compostos bioativos incluem flavonoides (quercetina, luteolina, 3-O-metilquercetina e quercetagetin), ácidos fenólicos (ácido cafeico e ácido clorogênico), óleos essenciais (com alfa-pineno e beta-cariofileno), compostos amargos, taninos e mucilagens.
Essa composição confere à macela propriedades anti-inflamatórias, antiespasmódicas, digestivas e carminativas, analgésicas, antioxidantes, antimicrobianas, gastroprotetoras e levemente sedativas. Os flavonoides são os principais responsáveis pelas ações anti-inflamatória e antioxidante, enquanto os compostos amargos e óleos essenciais atuam sobre o sistema digestivo, estimulando secreções e relaxando a musculatura lisa do trato gastrointestinal.
Usos Tradicionais no Brasil
A macela ocupa um lugar especial na cultura popular brasileira, particularmente no Rio Grande do Sul, onde a tradição de colher a planta na Sexta-Feira Santa (Sexta-Feira da Paixão) remonta a séculos. Acredita-se popularmente que a macela colhida nessa data sagrada possui propriedades terapêuticas potencializadas. As flores são cuidadosamente secas à sombra e guardadas em sacos de pano para uso ao longo de todo o ano.
O chá de macela é um dos remédios caseiros mais tradicionais das famílias sulistas, servindo como primeiro recurso para dores de estômago, má digestão, cólicas abdominais, gases e enjoos. Mães e avós preparam o chá para crianças com dor de barriga, e a planta é considerada segura e confiável pela sabedoria popular. A macela também é utilizada para rechear travesseiros e almofadas, com a crença de que seu aroma promove sono tranquilo e alivia dores de cabeça — uma prática que encontra algum respaldo na aromaterapia moderna.
Além do uso digestivo, a macela é empregada em compressas para inflamações oculares (conjuntivite), banhos para alívio de cólicas menstruais e como calmante leve em situações de nervosismo, de forma semelhante ao uso da camomila e da erva-cidreira.
Como Usar
Infusão (chá): Coloque uma colher de sopa (cerca de três gramas) de flores secas de macela em uma xícara de água fervente (150 a 200 ml). Tampe e deixe em infusão por dez a quinze minutos. Coe e consuma morno. Para efeito digestivo, tome após as refeições. Para cólicas e desconforto abdominal, consuma durante os episódios de dor. Pode-se beber até três xícaras por dia.
Combinações tradicionais: O chá de macela pode ser combinado com hortelã ou erva-doce para potencializar o efeito digestivo e carminativo, ou com camomila para uma ação calmante mais acentuada.
Compressas: Para uso externo em inflamações oculares leves, prepare a infusão, deixe esfriar completamente, coe com cuidado em filtro de papel e aplique com gaze limpa sobre os olhos fechados por dez minutos.
Travesseiro aromático: Encha um saquinho de tecido de algodão com flores secas de macela e coloque dentro da fronha do travesseiro para auxiliar no relaxamento e na qualidade do sono.
Contraindicações e Cuidados
A macela é considerada uma planta medicinal de boa segurança quando utilizada nas doses recomendadas. No entanto, gestantes devem evitar o consumo em doses elevadas, pois há relatos tradicionais de ação emenagoga. Pessoas com alergia conhecida a plantas da família Asteraceae (como camomila, arnica e crisântemo) devem usar a macela com cautela, pois pode ocorrer reação cruzada.
Não existem relatos significativos de interações medicamentosas, mas por precaução, pessoas em uso de anticoagulantes ou sedativos devem consultar um profissional de saúde antes de usar a macela regularmente. O uso prolongado por períodos superiores a quatro semanas deve ser avaliado por um profissional.
Evidências Científicas
A macela é uma das plantas medicinais brasileiras mais estudadas pela comunidade científica. Pesquisas realizadas em universidades brasileiras e sul-americanas, com publicações em periódicos indexados no PubMed e SciELO, confirmam suas atividades anti-inflamatória, antioxidante, antimicrobiana, antiviral e gastroprotetora. Estudos in vitro demonstraram que extratos de macela inibem a produção de mediadores inflamatórios e protegem a mucosa gástrica contra lesões induzidas por etanol e anti-inflamatórios não esteroidais.
A macela consta na RENISUS (Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS), lista elaborada pelo Ministério da Saúde que reúne espécies com potencial para gerar produtos de interesse ao Sistema Único de Saúde. A espécie é contemplada na Farmacopeia Brasileira, e a ANVISA a reconhece como planta de uso tradicional, validando seu emprego na fitoterapia. A planta integra o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do governo federal, reforçando sua importância para as políticas públicas de saúde no Brasil.
Termos Relacionados
Camomila, erva-doce, hortelã, erva-cidreira, boldo, espinheira-santa, infusão, chá, fitoterápico, picão-preto. Veja também os artigos Como fazer chá medicinal corretamente e Fitoterapia no SUS.
Perguntas Frequentes
Por que a macela é colhida na Sexta-Feira Santa? Trata-se de uma tradição cultural do sul do Brasil que remonta a séculos. A crença popular afirma que a planta colhida nessa data sagrada possui poderes curativos mais intensos. Do ponto de vista prático, a Sexta-Feira Santa geralmente coincide com o período de floração plena da macela (março-abril), quando a concentração de princípios ativos nas flores é máxima.
Macela e camomila são a mesma coisa? Não. Apesar de ambas pertencerem à família Asteraceae e terem flores amarelas, são espécies completamente distintas. A macela (Achyrocline satureioides) é nativa da América do Sul, enquanto a camomila (Matricaria chamomilla) é de origem europeia. Possuem composições químicas e indicações parcialmente diferentes, embora compartilhem algumas propriedades digestivas e anti-inflamatórias.
Posso dar chá de macela para bebês? O uso de qualquer chá em bebês menores de seis meses é desaconselhado, pois o leite materno ou fórmula deve ser a fonte exclusiva de alimentação. Para bebês acima de seis meses e crianças, consulte o pediatra sobre a adequação e a dosagem apropriada.
A macela serve para gastrite? Estudos demonstram que a macela possui ação gastroprotetora, podendo auxiliar na proteção da mucosa do estômago. No entanto, a gastrite pode ter diversas causas, incluindo infecção por H. pylori, e requer diagnóstico médico adequado. O chá de macela pode ser um complemento, mas não substitui o tratamento médico convencional.
Aviso Importante: Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica profissional. Consulte um profissional de saúde antes de utilizar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando ou em uso de medicamentos. Em caso de reações adversas, procure atendimento médico imediato.