Maracujá

Passiflora incarnata / Passiflora edulis

O Que É

O maracujá é uma das plantas mais emblemáticas da flora brasileira, reconhecido mundialmente tanto por seu fruto de sabor único e marcante quanto por suas poderosas propriedades medicinais calmantes. A palavra “maracujá” tem origem no tupi mara kuya, que significa “alimento em forma de cuia”, referência ao formato arredondado do fruto. No Brasil, o maracujá transcende a fitoterapia e está profundamente enraizado na cultura popular, sendo sinônimo de calma e tranquilidade — quem nunca ouviu a expressão “toma um suco de maracujá”?

O gênero Passiflora é extraordinariamente diverso, reunindo mais de quinhentas espécies distribuídas principalmente nas Américas tropicais e subtropicais. O Brasil é um dos maiores centros de biodiversidade do gênero, abrigando mais de cento e cinquenta espécies nativas. Duas espécies se destacam: a Passiflora edulis (maracujá-azedo), amplamente cultivada para consumo alimentar, e a Passiflora incarnata (maracujá-selvagem ou flor-da-paixão), que é a espécie de referência na fitoterapia mundial. Para maior aprofundamento sobre a espécie medicinal, veja também o verbete passiflora.

Nome Científico e Origem

O maracujá pertence ao gênero Passiflora, família Passifloraceae. As duas espécies principais são: Passiflora edulis Sims (maracujá-azedo ou maracujá-roxo), nativa da América do Sul, sendo o Brasil seu principal centro de origem; e Passiflora incarnata L. (maracujá-selvagem), nativa da América do Norte e Central, principal espécie utilizada em fitoterápicos.

As plantas são trepadeiras vigorosas que podem atingir vários metros de comprimento, com gavinhas que se prendem a suportes. As flores, chamadas de “flor-da-paixão”, são espetaculares e complexas, com uma estrutura única que levou os missionários europeus a associá-las aos elementos da Paixão de Cristo — daí o nome científico Passiflora (flor da paixão). Os frutos são bagas globosas ou ovoides, com casca que varia do amarelo ao roxo, contendo polpa mucilaginosa com numerosas sementes.

Propriedades Medicinais

Os compostos bioativos do maracujá concentram-se principalmente nas folhas e partes aéreas, embora o fruto também possua propriedades terapêuticas. Os principais constituintes incluem flavonoides C-glicosídeos (vitexina, isovitexina, orientina e isoorientina), o flavonoide crisina, alcaloides do grupo beta-carbolina (harmana, harmina e harmalina), ácido gama-aminobutírico (GABA), ácidos fenólicos e cumarinas.

O mecanismo de ação calmante do maracujá envolve a modulação do sistema GABAérgico no sistema nervoso central. Os flavonoides, especialmente a crisina, ligam-se a receptores GABA-A, potencializando a ação inibitória desse neurotransmissor. Os alcaloides beta-carbolínicos possuem ação sobre a enzima monoamino-oxidase (MAO). Essa combinação resulta em propriedades ansiolíticas, sedativas leves, antiespasmódicas, hipotensoras leves e analgésicas. Diferentemente de muitos sedativos sintéticos, o maracujá promove relaxamento sem causar sonolência excessiva ou comprometimento cognitivo significativo nas doses recomendadas.

Usos Tradicionais no Brasil

No Brasil, o maracujá é talvez a planta medicinal mais universalmente reconhecida pela população como calmante natural. Essa associação cultural é tão forte que permeia a linguagem cotidiana: sugerir que alguém “tome um maracujá” é um conselho popular para quem está nervoso ou estressado. O suco do fruto é consumido por milhões de brasileiros não apenas pelo sabor, mas pela crença em seus efeitos relaxantes.

O chá das folhas do maracujá é um remédio caseiro presente em todas as regiões do país. Avós brasileiras preparam a infusão para netos agitados, para adultos em períodos de estresse e para idosos com dificuldade para dormir. Nas feiras populares e casas de produtos naturais, as folhas secas de maracujá estão entre os itens mais procurados.

A farinha da casca do maracujá ganhou grande popularidade como suplemento alimentar, especialmente após pesquisas indicarem potenciais efeitos sobre o controle da glicemia e a redução do colesterol. As sementes, ricas em óleos insaturados, também são objeto de estudos nutricionais.

Como Usar

Infusão das folhas (chá): Coloque uma colher de sopa (cerca de dois a três gramas) de folhas secas de maracujá em uma xícara de água fervente (150 a 200 ml). Tampe e deixe em infusão por dez a quinze minutos. Coe e consuma morno. Para insônia, tome uma xícara trinta minutos antes de dormir. Para ansiedade durante o dia, consuma uma xícara pela manhã e outra à tarde. Pode-se tomar até três xícaras por dia.

Suco do fruto: O suco natural do maracujá possui efeito calmante leve. Bata a polpa com água e adoce a gosto. Uma porção de suco natural antes de dormir pode auxiliar no relaxamento.

Fitoterápicos padronizados: Cápsulas, comprimidos e tinturas à base de Passiflora incarnata estão disponíveis em farmácias e oferecem dosagem controlada. São a opção mais adequada para tratamento contínuo, devendo ser usados conforme orientação do profissional de saúde ou da bula.

Combinações: O chá de maracujá combina bem com camomila, melissa ou erva-cidreira para um efeito calmante potencializado, sendo uma excelente opção para quem busca alternativas naturais para ansiedade.

Contraindicações e Cuidados

Gestantes devem evitar o uso das folhas de maracujá, pois os alcaloides harmânicos podem ter efeito uterotônico. O consumo do fruto (polpa e suco) é geralmente seguro durante a gestação. Lactantes devem consultar o médico antes de usar preparações com as folhas.

O maracujá pode potencializar o efeito de medicamentos sedativos, ansiolíticos (benzodiazepínicos), anti-histamínicos e barbitúricos, aumentando a sonolência. Pessoas em uso de antidepressivos inibidores da MAO devem evitar o uso, devido à presença de alcaloides harmânicos. Não consuma maracujá em preparações medicinais antes de dirigir ou operar máquinas pesadas até conhecer a resposta individual. Doses muito elevadas podem causar sonolência, tontura e, raramente, náusea.

Evidências Científicas

A Passiflora incarnata possui um dos mais robustos perfis de evidência científica entre as plantas medicinais ansiolíticas. Ensaios clínicos randomizados e controlados, publicados em periódicos como o Journal of Clinical Pharmacy and Therapeutics e disponíveis no PubMed, demonstram eficácia comparável a benzodiazepínicos de baixa dose (como o oxazepam) no tratamento da ansiedade generalizada, com a vantagem de provocar menos efeitos colaterais sobre o desempenho profissional e a função cognitiva.

A ANVISA reconhece e registra fitoterápicos à base de Passiflora incarnata com indicações para ansiedade, inquietude, irritabilidade e insônia, classificando-os como medicamentos fitoterápicos. A espécie consta na Farmacopeia Brasileira, na RENISUS e em farmacopeias internacionais. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e a Comissão E da Alemanha também endossam o uso da passiflora para distúrbios do sono e ansiedade leve. A OMS inclui a Passiflora incarnata em suas monografias sobre plantas medicinais.

Termos Relacionados

Passiflora, valeriana, camomila, melissa, erva-cidreira, lavanda, infusão, tintura, fitoterápico, capim-santo. Veja também os artigos Plantas medicinais para ansiedade e estresse e Fitoterapia no SUS.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre maracujá e passiflora? “Maracujá” é o nome popular brasileiro para as plantas do gênero Passiflora. Quando se fala em “passiflora” no contexto fitoterápico, geralmente refere-se à espécie Passiflora incarnata, a mais estudada para fins medicinais. O maracujá comercial (P. edulis) é mais usado como alimento, embora suas folhas também tenham propriedades calmantes. Saiba mais no verbete passiflora.

O suco de maracujá realmente acalma? Sim, embora o efeito do suco do fruto seja mais leve que o das preparações com as folhas. O fruto contém pequenas quantidades de flavonoides e GABA, que contribuem para um efeito relaxante sutil. As folhas concentram maiores quantidades dos princípios ativos responsáveis pela ação calmante.

Posso tomar maracujá junto com remédio para dormir? Não é recomendável sem orientação médica. O maracujá pode potencializar o efeito de medicamentos sedativos e ansiolíticos, aumentando o risco de sonolência excessiva. Se já utiliza medicamentos para sono ou ansiedade, consulte seu médico antes de associar o maracujá.

A farinha da casca do maracujá emagrece? A farinha da casca é rica em pectina, uma fibra solúvel que pode contribuir para a saciedade e para a modulação da absorção de açúcares e gorduras. Estudos preliminares indicam potencial para auxiliar no controle glicêmico, mas não é um produto milagroso para emagrecimento. Deve ser associada a uma alimentação equilibrada e atividade física.


Aviso Importante: Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica profissional. Consulte um profissional de saúde antes de utilizar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando ou em uso de medicamentos. Em caso de reações adversas, procure atendimento médico imediato.

⚠️ Aviso Importante Este conteúdo é apenas informativo e educacional, não constituindo aconselhamento médico ou farmacêutico. Não substitui a orientação de um profissional de saúde qualificado. Consulte um médico ou farmacêutico antes de usar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando, tomando medicamentos ou possuir condições de saúde pré-existentes.
← Voltar ao Glossário