O Que É
A valeriana (Valeriana officinalis) é uma planta herbácea perene que pode alcançar de sessenta centímetros a um metro e meio de altura, com flores pequenas, brancas ou rosadas, reunidas em inflorescências terminais. Pertence à família Caprifoliaceae (anteriormente classificada na família Valerianaceae) e é uma das plantas medicinais sedativas mais estudadas, regulamentadas e prescritas do mundo. Seu nome deriva do latim valere, que significa “ser forte” ou “ser saudável”, uma referência à robustez da planta ou à potência de seus efeitos terapêuticos. A parte utilizada medicinalmente é a raiz e o rizoma, que possuem um odor forte, pungente e desagradável para a maioria das pessoas, mas que curiosamente atrai gatos de forma irresistível, motivo pelo qual a planta recebe o apelido de “erva-dos-gatos” em diversas línguas. No Brasil, a valeriana conquistou um lugar de destaque na fitoterapia oficial, sendo um dos poucos fitoterápicos disponibilizados pelo SUS (Sistema Unico de Saude) e figurando na RENAME (Relacao Nacional de Medicamentos Essenciais). Essa posição reflete o sólido embasamento científico que sustenta suas indicações para insônia e ansiedade, tornando-a uma alternativa natural reconhecida pelo sistema de saúde brasileiro.
Nome Científico e Origem
A valeriana pertence à espécie Valeriana officinalis L., da família Caprifoliaceae. O gênero Valeriana é bastante diverso, compreendendo mais de duzentas espécies distribuídas por regiões temperadas da Europa, Ásia e Américas. Na América do Sul, existem espécies nativas do gênero, como Valeriana scandens e Valeriana glechomifolia, mas é a V. officinalis europeia que concentra a maior parte das pesquisas e do uso clínico. A planta é originária da Europa e do oeste da Ásia, sendo encontrada naturalmente em prados úmidos, margens de rios e bordas de bosques desde a Escandinávia até o Mediterrâneo. Seu uso medicinal remonta à Grécia Antiga: Hipócrates descreveu suas propriedades, e Galeno (século II) a recomendou especificamente para insônia. Na Idade Média, a valeriana era considerada uma panaceia e era chamada de “cura-tudo” em diversas línguas europeias. No Brasil, a valeriana foi introduzida pelos colonizadores portugueses e por imigrantes europeus, adaptando-se bem ao cultivo nas regiões Sul e Sudeste, onde o clima mais ameno favorece seu desenvolvimento. O estado do Paraná é um dos principais produtores nacionais de valeriana para fins medicinais.
Propriedades Medicinais
A raiz e o rizoma da valeriana possuem um perfil fitoquímico complexo que inclui diversas classes de compostos bioativos. Os óleos essenciais, que representam de 0,3 a 0,7% da droga seca, contêm ácido valerênico e seus derivados (ácido acetoxivalerênico, ácido hidroxivalerênico), valeranona, valerenal e isovalerato de bornila. O ácido valerênico é considerado o principal marcador químico e composto ativo, atuando como modulador dos receptores GABA-A no sistema nervoso central. Os valepotriatos (valtrato, isovaltrato, acevaltrato) são iridoides instáveis presentes na planta fresca que se decompõem durante a secagem e o armazenamento, originando compostos como o baldrinal. Embora sua contribuição para o efeito sedativo seja debatida, os valepotriatos possuem ação espasmolítica documentada. A valeriana também contém alcaloides em pequenas quantidades, lignanas (como o olivil), flavonoides e aminoácidos livres, incluindo o ácido gama-aminobutírico (GABA), embora a contribuição do GABA exógeno para o efeito central seja controversa. O mecanismo de ação da valeriana é multifatorial: o ácido valerênico inibe a enzima GABA-transaminase, aumentando a concentração de GABA no cérebro, o que promove relaxamento, redução da ansiedade e facilitação do sono sem os efeitos colaterais típicos dos benzodiazepínicos.
Usos Tradicionais no Brasil
No Brasil, a valeriana é amplamente utilizada como sedativo natural e indutor do sono, sendo uma das plantas medicinais mais procuradas em farmácias e lojas de produtos naturais para essas finalidades. A tradição brasileira de uso da valeriana foi fortemente influenciada pela fitoterapia europeia, trazida por imigrantes e profissionais de saúde. O chá da raiz de valeriana é consumido à noite, antes de dormir, como auxiliar para induzir o sono. No entanto, o sabor e o aroma fortes e desagradáveis da raiz levaram à popularização de formas farmacêuticas que minimizam o contato com o paladar, como cápsulas e comprimidos. A valeriana é frequentemente combinada com outras plantas sedativas na tradição popular e em produtos fitoterápicos: as associações mais comuns incluem valeriana com passiflora (maracujá), valeriana com melissa (erva-cidreira verdadeira), e valeriana com camomila. Essas combinações buscam um efeito sinérgico, potencializando a ação calmante e relaxante. No contexto do programa de Fitoterapia no SUS, a valeriana é dispensada gratuitamente em cápsulas ou comprimidos padronizados em diversas unidades de saúde do país, sendo uma alternativa acessível para pessoas com insônia e ansiedade leves que preferem uma opção natural antes de recorrer a medicamentos sintéticos.
Como Usar
Para o chá, utilize uma colher de chá (dois a três gramas) de raiz seca triturada por xícara de água. Prepare por decocção, adicionando a raiz à água fria e fervendo em fogo baixo por dez a quinze minutos. Tampe durante o cozimento para evitar a perda de compostos voláteis. Coe e consuma trinta a sessenta minutos antes de dormir. Cápsulas e comprimidos de extrato seco padronizado são a forma mais popular de uso, com dose padrão de trezentos a seiscentos miligramas de extrato, tomados trinta a sessenta minutos antes de deitar. A tintura é outra opção, na dose de trinta a cinquenta gotas diluídas em água antes de dormir. Para ansiedade diurna, doses menores podem ser distribuídas ao longo do dia, duas a três vezes. Um ponto importante: o efeito máximo da valeriana pode levar de duas a quatro semanas de uso regular para se manifestar plenamente, pois o mecanismo de ação envolve modulação gradual dos receptores GABAérgicos. Não espere efeito imediato comparável ao de um ansiolítico sintético na primeira dose.
Contraindicações e Cuidados
A valeriana é contraindicada para crianças menores de três anos e seu uso em crianças de três a doze anos deve ser supervisionado por um profissional de saúde. Gestantes e lactantes devem evitar o uso por falta de estudos de segurança adequados nessas populações. Pessoas que operam máquinas ou dirigem devem avaliar individualmente se a valeriana afeta sua capacidade de atenção, embora a sonolência residual seja rara. A valeriana pode potencializar o efeito de outros sedativos, incluindo benzodiazepínicos, barbitúricos, anti-histamínicos sedativos e álcool, portanto deve-se evitar a associação sem orientação médica. Não é recomendado suspender abruptamente o uso de medicamentos ansiolíticos ou hipnóticos prescritos para substituí-los por valeriana sem acompanhamento médico. Efeitos adversos são raros e geralmente leves, podendo incluir cefaleia, desconforto gastrointestinal e, paradoxalmente, agitação em algumas pessoas sensíveis. O uso crônico por mais de oito semanas deve ser acompanhado por um profissional de saúde. Pessoas com doença hepática devem ter cautela, pois existem raros relatos de hepatotoxicidade associados ao uso prolongado de valeriana, embora a causalidade não tenha sido estabelecida definitivamente.
Evidências Científicas
A valeriana possui um dos perfis de evidência científica mais robustos entre as plantas medicinais sedativas. Dezenas de ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo avaliaram sua eficácia para insônia e ansiedade. Meta-análises publicadas em periódicos como Sleep Medicine Reviews e The American Journal of Medicine concluem que a valeriana melhora a qualidade subjetiva do sono e reduz o tempo para adormecer, embora com variabilidade entre estudos devido a diferenças nas preparações, doses e populações estudadas. Pesquisas neurofarmacológicas confirmam a modulação do sistema GABAérgico pelo ácido valerênico. A ANVISA registra fitoterápicos à base de valeriana como medicamentos com indicação terapêutica para insônia e ansiedade, com exigência de estudos de eficácia e segurança para registro. A planta consta na Farmacopeia Brasileira, com monografia que estabelece parâmetros de qualidade e identidade para a droga vegetal e seus extratos. Está incluída na RENAME, o que permite sua dispensação gratuita pelo SUS. A EMA (European Medicines Agency) e a Comissão E alemã reconhecem a valeriana para distúrbios do sono e estados de tensão nervosa. A OMS inclui a valeriana em suas monografias de plantas medicinais selecionadas. Estudos publicados no PubMed continuam a expandir o conhecimento sobre mecanismos de ação e perfil de segurança da planta.
Termos Relacionados
- Passiflora — planta sedativa frequentemente combinada com valeriana
- Melissa — erva calmante associada à valeriana em formulações
- Camomila — planta relaxante complementar à valeriana
- Maracujá — fruto com propriedades calmantes reconhecidas
- Tintura — forma de preparação concentrada da valeriana
- Chá — forma tradicional de consumo da raiz
- Fitoterápico — produtos regulamentados à base de valeriana
- Plantas medicinais para ansiedade e estresse — artigo sobre alternativas naturais para saúde mental
Perguntas Frequentes
A valeriana causa dependência como os remédios para dormir? Não. Diferentemente dos benzodiazepínicos e outros hipnóticos sintéticos, a valeriana não causa dependência física ou psicológica nas doses recomendadas. Também não apresenta efeito rebote significativo ao suspender o uso, o que a torna uma opção mais segura para uso a médio prazo.
Por que a valeriana demora para fazer efeito? O mecanismo de ação da valeriana envolve a modulação gradual dos receptores GABAérgicos no sistema nervoso central. Diferente de um sonífero sintético que age imediatamente, a valeriana precisa de duas a quatro semanas de uso regular para atingir seu efeito máximo. Algumas pessoas relatam melhora já na primeira semana.
Posso tomar valeriana durante o dia para ansiedade? Sim. Embora seja mais conhecida como auxiliar do sono, a valeriana possui ação ansiolítica que pode ser utilizada durante o dia em doses menores. A sonolência diurna é rara, mas avalie individualmente sua resposta antes de dirigir ou operar máquinas.
A valeriana pode ser combinada com passiflora? Sim, a combinação de valeriana com passiflora é uma das mais tradicionais e estudadas na fitoterapia. Existem diversos produtos fitoterápicos registrados na ANVISA que combinam ambas as plantas para insônia e ansiedade. Consulte um profissional de saúde para orientação sobre dosagem.
Aviso Importante: Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica profissional. Consulte um profissional de saúde antes de utilizar qualquer planta medicinal, especialmente se estiver grávida, amamentando ou em uso de medicamentos. Em caso de reações adversas, procure atendimento médico imediato.